segunda-feira, 27 de junho de 2016

LIÇÃO DIVINA

      Neste fim de semana (25 e 26 de junho de 2016), a vida me pregou uma lição: a importância da morte para conscientização da humanidade sobre sua condição de pó.
       No auge da existência, aos 32 anos de idade, um infarto fulminante ceifou a jovem Lenice, deixando quatro filhos órfãos. O impacto dilacerante da dor, no primeiro momento, é apenas encarado como crueldade e injustiça, mas há um lado benéfico difícil de ser absorvido, mas que nestas condições adversas forçam os viventes a caírem do egoísmo entronizado, cedendo lugar à fragilidade e uniformização de todos. São nesses momentos de desespero e escuridão que a reflexão acontece como freio para toda nossa pretensão de onipotência. As lágrimas unem-se, os abraços entre parentes e amigos são mais cálidos, espontâneos, demostrando o quanto precisamos uns dos outros e que não há tempo a perder. A saudade também é outra ferramenta usada pelas mãos do Criador, estímulos para trazer à tona tudo o que era precioso e agora se foi, mas que guardamos trancafiados no coração como sentimento necessário, um paradoxo entre sofrimento e lembrança prazerosa. Aos que ainda não sentiram esse gosto amargo, fica o alerta para se aproveitar o resto de fôlego que ainda existe.
       Enquanto o coral cantava a três vozes: Jamais se diz adeus ali, jamais se diz adeus; no eterno lar de amor e paz, jamais se diz adeus...” A lição chegava ao fim quando observei os olhos vazios e desnorteados de Pedrinho, um dos filhos que acompanhavam o final do sepultamento da mãe, o qual já carregava a ausência do pai que nunca conhecera. Os demais, por causa do sol escaldante de Rondônia, começavam a retornar as suas rotinas, mas ele fez questão de ficar ali, até que a gaveta mortuária fosse selada. Neste momento, não foi possível conter o choro, mas Deus abraçou-me e sussurrou nos meus ouvidos:
       - Filho, eu nunca abandono ninguém. Já preparei dois anjos para cuidarem dele, aos quais continuarei dando forças e condições para realizarem o que os ensinei: serem luz, sal da terra e exalarem o meu amor.
       Senti-me privilegiado por ainda ter meus pais e tive mais uma prova inquestionável de que Deus e os anjos realmente existem.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

ÊXTASE E CONSTERNAÇÃO

Na noite desta quarta-feira, 22 de junho de 2016, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, aconteceu a 27ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Esta declaração de amor a nossa cultura nacional nasceu com o Prêmio Sharp, em 1987, que posteriormente passou a se chamar de Prêmio Tim de Música. Vários artistas brasileiros já foram merecidamente homenageados: Tom Jobim, João Bosco, Noel Rosa, Dona Ivone Lara, Clara Nunes, Dominguinhos, Zé Keti, Jair Rodrigues, Baden Powell, Lulu Santos, Ary Barroso, Gal Costa, Jackson do Pandeiro, Rita Lee, Milton Nascimento, Elis Regina, Gilberto Gil, Ângela Maria, Cauby Peixoto, Luiz Gonzaga, Elizeth Cardoso, Maysa, Dorival Caymmi, Vinícius de Moraes, Maria Bethânia e desta feita, retratando a vida e a obra do cantor e compositor Gonzaguinha, que completaria 71 anos neste ano.
A célebre noite iniciou-se com o clássico “Com a perna no mundo”, na interpretação inconfundível de Alcione; Ângela Rô Rô e Luiz Melodia arrasaram no palco com “Grito de alerta”; Filipe Catto e Simone Mazzer destilaram “Sangrando”; Criollo incorporou a canção “Comportamento geral”; Ney Matogrosso, aos 75 anos de idade, em plena forma, com a voz ainda impecável e seu estilo único, emocionou o público com “Explode coração”; João Bosco, exímio violonista, destrinchou “Galope”; Elza Soares relembrou “O que é, o que é” e Seu Jorge encerrou o evento com o samba “É”. A banda que acompanhou todos os artistas contou com os arranjos de João Carlos Coutinho (piano), além dos músicos da estirpe de Kiko Freitas (bateria), Rômulo Gomes (baixo), dentre outros.
As categorias revelaram os premiados: Zélia Duncan (cantora de samba e melhor canção “Antes do mundo acabar”) Alfredo Del-Penho (cantor de samba), Moacyr Luz e Samba do Trabalhador (grupo de samba), Xangai e Elba Ramalho (cantores regionais), Almir Sater e Renato Teixeira (dupla regional), Adriana Calcanhoto, (DVD, Adriana Calcanhoto canta Lupicínio Rodrigues), Gal Costa e Lenine (cantores Pop/Rock/Hip-hop/Funk), Titãs (Grupo Pop/Rock/Hip-hop/Funk - Elza Soares, melhor álbum),  Fafá de Belém e Roberto Carlos (cantores - canção popular), Simone Mazzer (revelação), Caetano Veloso (cantor MPB e melhor álbum “Dois amigos, um século de música, ao lado do parceiro, Gilberto Gil), Virgínia Rodrigues (cantora MPB). No quesito instrumental, Yamandu Costa e Rogério Caetano levaram o prêmio de melhor álbum “Tocata à amizade”, Hamilton de Holanda (instrumentista solo) e Guinga (arranjador – álbum “Porto da Madama”).
A cerimônia, com quase três horas de duração, foi transmitida ao vivo pelo Canal Brasil, exclusivo somente para assinantes, é claro, vez que em canais abertos somente a mediocridade sonora tem espaço garantido. Diante dos meus olhos marejados e contemplativos, brindei a vida, pude vislumbrar a enorme contribuição da Música Popular Brasileira, algo que já absorvo ao longo de quase trinta anos, grato a Deus por ter me proporcionado este momento, no camarote do meu quarto, degustando esses petiscos saborosos, juntamente com os compositores, instrumentistas, intérpretes, produtores, diretores e a crítica, mas é lamentável que a grande parte do povo brasileiro não tenha sido convidado para a festa e permanece raquítico, miseravelmente desnutrido.   

sexta-feira, 3 de junho de 2016

ABDUZIDO

           Para pedras parecerem plumas, o processo trabalhoso de mudança se desenrolava com o porta-malas erguido, destilando sons homéricos de cancioneiros da Música Popular Brasileira e inserções jazzísticas que fluíam potentes do meu pioneer.
          O ambiente transformou-se em estúdio particular e, por vezes, pista de dança que deixavam a tarde muito mais harmoniosa. Era um olho na lida e outro nos transeuntes que passavam rente à garagem. Caras contorcidas, testas franzidas, narizes tentando alçar voos, lábios cerrados, sussurros incompreensíveis, sibilos denunciando a vontade de abater-me como presa, múltiplos sentimentos avolumavam-se na face rubra dos passantes. Isso não era fruto de uma atitude vingativa, a fim de dar o troco aos infortúnios causados por essa gente que me cerca continuamente com seus massacres sonoros, apenas um convite ao prazer e à degustação.
            De repente, o pintor surgiu para continuar seu trabalho. Parou por alguns minutos, coçou parte da cabeça coberta por um boné chapiscado de tinta e como se estivesse sido atacado por um enxame de vespas, mais rápido que as escalas do sax tenor de Michael Brecker que ecoavam do improviso absorvido por minha grata audição, largou seus apetrechos e desistiu da façanha, fazendo-me lembrar de um caronista que certa vez só não pulou do carro porque a longa distância era muito mais ameaçadora.
        Por várias vezes tive o pressentimento de que eles imaginavam um disco voador baixando no quintal, a fim de me abduzir, tamanha era a sensação de assombro que cercava a cena. O que eles não sabiam, era que eu não estava ali, há muito tempo já fui abduzido pela arte. Na verdade, sou uma lenda ou nem existo, sou um Homo OVNI, uma estranheza necessária para continuar sobrevivendo nesta terra tão carente do meu mundo.

domingo, 29 de maio de 2016

SOBREVIVENTES

    Naquela tarde fatídica, esgueirando-me da impassividade do Direito e do campo minado que ameaça explodir meus tímpanos já em frangalhos, por uma questão de sobrevivência e necessidade fisiológico-musical, entrincheirei-me na casa do Thael.
    Cheguei ofegante, disritmado, buscando oxigênio nos acordes dissonantes de seu violão. Ainda poderia aventurar-me lá pelas bandas do Luciano ou até mesmo uma pausa para ver esmerar as baquetas nervosas do Robismar, os únicos da cidade capazes de devolver-me o ar. Sensível e compatriado, sapecou logo à queima roupa três canções da lavra Bosquiana: “Corsário”, “Jade” e  “Quando o amor acontece”. O anfitrião soltou um sorriso ladino e, percebendo que ainda respirava com dificuldade, destilou doses cavalares de Djavan, Chico, Tom, Ivan e Edu. Aos poucos, mergulhamos no mar infinito da Música Popular Brasileira e mais pérolas foram surgindo como antibióticos potentes que expulsavam qualquer vestígio infeccioso.
    Papos culturais foram estreitando os laços de uma amizade necessária, a qual preservo com muita estima e admiração, vez que também é um dos sobreviventes em meio ao caos, atuando como músico refugiado em alguns lugares remotos de Rondônia, sempre mantendo o nível artístico, sem nunca se aderir à promiscuidade sonora que prepondera hoje em dia. Segue sua árdua luta contínua como filho bastardo de uma terra que não é capaz de reconhecer seu talento. Meu corpo já podia sentir a seiva da vida correndo nas veias. Aquele momento sublime transportava-me para bem longe desses modismos febris de pura desilusão. O saudosismo tomava conta e remetia aos discos que guarnecem minha casa, um convite para ligar o som do carro e voltar ao casulo.
   Num ato solitário, já totalmente recomposto, antes mesmo que chegasse próximo ao veículo, rajadas de uma metralhadora destrambelhada rasgaram a esmo o céu: “...as que comandam vão no tra, tra, tra, tra, tra...”. Senti o baque da moléstia tentando minar minhas forças reestabelecidas. Imediatamente, antes de ser alvejado, fechei os vidros, disparei o dedo certeiro no play e o pen drive recheado de jazz, bossas, choros e afins isolou-me no mundo dos tarjas pretas que preciso ingerir perpetuamente, os quais não possuem contra indicações e fortalecem minha existência.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

AMOR ETERNO

“Não vai mudar, toda mãe é assim, mãe é o nome do amor”. Todo filho compreende a canção “Dona do horizonte”, uma homenagem de Djavan que se estende a todas elas, fãs incondicionais de suas crias, detentoras de elogios que nos acompanham durante a trajetória da vida.
- Nossa, meu filho, que lindo seu desenho! –
Em meio a tantos rabiscos indefinidos, só os seus olhos puderam contemplar a tal obra de arte.
- Filho, sua voz ficou perfeita nesta canção! –
Se há algum erro, é da gravação, sempre serei o seu Sinatra!
   Trancava-me no salão, onde durante o dia funcionava um açougue, mas à noite virava meu estúdio improvisado. Enquanto as latas de guardar alimento eram os tons e a caixa, a tesoura no pé esquerdo, o chimbal e o estojo de guardar a acordeon, o bumbo, suportando o show barulhento, dizia, sorrindo:
   - Lindo esse som, meu filho, parece uma bateria de verdade!
Quando a tristeza ainda resolve rondar a minha porta e abater o meu espírito, lá vem ela:
- Filho, você é capaz, tenho certeza que vai conseguir.
Basta recepcionar as visitas que as propagandas e divulgações nos elevam sem modéstia e as fotos circulam de mãos em mãos, demonstrando toda a evolução. Para elas, embora já tenhamos deixado o ninho há muito tempo, ainda somos como embriões.
Onde poderemos encontrar um amor assim, a não ser nos braços de Deus!
Por isso, aos 66 anos de idade, comemorando seus 40 de carreira, na cerimônia de premiação, realizada em Las Vegas, sendo homenageado na 16ª entrega do Prêmio Grammy Latino (Prêmio à Excelência Musical), Djavan fez questão de agradecer, publicamente, a esse amor incondicional, embora estejam separados em tempo e espaço há tanto anos, este sentimento sempre acompanhou e alimentou sua alma de poeta.

Faço questão de transcrever toda a letra desse genial compositor, como fonte de agradecimento a esta que também revigora minhas forças e registra sua eternidade na mente e no coração: minha mãe!

“Eu já nasci
Minha mãe quem diz
Predestinado ao canto
Ela falou
Que eu tinha o dom
Quando eu estava
Na soleira
Dos meus poucos anos!
Foi indo assim, quando dei por mim
Já não fazia outra coisa
Cantava ali, só pra ela ouvir
E me dizer coisas tão boas
Por exemplo
Quero vê-lo o mais querido
Como nosso Orlando
Hei de ler seu nome escrito
Em placa de avenida
Não vai mudar, toda mãe é assim
Mãe é o nome do amor!
Logo cresci
Minha mãe ali
Dona do horizonte
Me fez ouvir
Dalva de Oliveira
E Angela Maria todo dia
Deusas que adorava
Tinha prazer
Em me levar pra ver
Luiz Gonzaga cantar
Não sem deixar
De advertir
Pra que eu estudasse sempre mais
E sem descanso
Quero vê-lo o mais querido
Como nosso Orlando
Hei de ler seu nome escrito
Em placa de avenida
Não vai mudar, toda mãe é assim
Mãe é o nome do amor!”

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

VITALIDADE DA ALMA NORDESTINA

“...mas quando é dia de festa todo povo do sertão dança para aparar as arestas do coração”, assim menciona Djavan, nos versos de “Vida nordestina”, uma das faixas do seu novo disco autoral: Vidas pra contar. O alagoano tem razão, pude flagrantear o acontecido em Campo Grande, durante esses quase trinta dias que estive por lá.
Aos 73 anos de idade, após ter enfrentado duas cirurgias contra uma terrível neoplasia e passar por um tratamento severo, com mais de 30 sessões de quimioterapia e 39 radioterapias, já repousando em sua casa, na peleja com um aparelho desses mais modernos, minha mãe desabafou:
- Meu filho, pelo amor de Deus, liga esse bicho, não sei viver sem música!
Compreendi-me. Descobri de onde vem minha paixão pela música e literatura (embora já o soubesse). O gene arretado desta cearense me arrebatou ainda em seu ventre. Mal começaram a rugir os primeiros acordes do violão de Yamandu Costa, mesclados à delicadeza sonora que saía do acordeon de Dominguinhos, que, de sobressalto, já rodopiando pela sala, ela bailava em plena liberdade, agarrando a mão do vento e me convidando para afugentar o silencio que até então imperava. Outras canções foram salpicando brasas em nossos pés e por alguns instantes não havia dor, lamento ou qualquer vestígio de enfermidade, pelo contrário, o espírito do Senhor pairava sobre aquele lugar, a força divina se entrelaçava aos sons que ecoavam pela casa.  
Já ofegante no sofá, enquanto seu corpo ainda frágil dava os últimos passos, vislumbrei a debilidade da matéria contrastando-se com o vigor do espírito; testemunhei a vitalidade da alma nordestina, a qual não se entrega nem desiste de lutar, capaz de suportar as agruras do tempo com o escudo da fé e do bom humor e não esmorecer jamais.
            Toda esta experiência só confirmou aquilo que eu já sabia: música é remédio; o amor realmente existe e Deus está em todo lugar.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

LIBERTAÇÃO

Todo entanguido, Zé Catinga não podia me ver
que rotava seu ofício: poetar
o bicho bulia na criação – lua, nuvem, estrela
tudo o que é bem longe da riqueza do chão.
Era só com a cara pra cima
pensando que ninho de palavras é em riba do céu
- Malassombro! – abanei a cabeça, assuntando o despropósito.
Era topar com o besta fera
E ele já se enfiava num jardim: rosa, roseira, roseiral
Nunca vi gostar tanto assim de flor!
Mas poesia nunca esteve ali.
Num alumbramento mentiroso seguia vazio em sua desorientação.
Pra poema, só flor de toco tem serventia
pilhéria, potoca, perfume de pedra
e assombração escanchada na garupa das histórias inventadas, também.
Pobre do Zé, vive iludido, sem direção
carrega uma ruma de papel e letras mortas
sempre com seu diploma desformado.
Nunca desinformou a palavra mode deixá-la troncha
só anda na lei das regras, feito polícia
que de arte não tem rastro nem cheiro.
Nunca ouviu a vó Bela empoemar no pé de manga
nem ao menos viu Agostinho reinventar o idioma
sequer embrenhou nos matos em noite de lobisomem.
Pra poeta, tá longe, carece muito de libertação.