segunda-feira, 21 de novembro de 2011

RAÍZES DE SANGUE

     Ao som nostálgico de “song pepper”, do guitarrista Mike Stern, enquanto vislumbrava as fotos que registraram boa parte da família concentrada na festa de 60 anos de casamento da tia Ana e do tio Raimundo, no interior do Matogrosso do Sul, a saudade resolveu prender-me em suas asas e transportar para o seio das abençoadas raízes de sangue.
     Não foi possível ver o meu rosto entre os demais, uma vez que não pude estar presente no evento. Mas quem disse que algum dia estive distante? Estamos todos conectados por um elo inexplicável. Meus pés ainda tocam a poeira do chão da pacata cidade de Pedro Gomes e a chuva de Campo Grande ainda encharca minha camisa coarada agora pelo sol de Rondônia; o corpo ainda sente os afagos da minha mãe, do filho, dos avós, tios e primos; minha voz se mistura aos sotaques nordestinos que pairam em todas as festividades; os cabelos brancos se fundem com as profundas entradas que anunciam a chegada da precoce calvície, o sangue se agita quando a música de Luiz Gonzaga ecoa pelo salão. Tudo isso alimenta minha saudade, mas sempre a encarei como um sentimento benéfico. Trata-se de uma dor necessária, uma hemorragia que não quero estancar, pois quanto mais sangra, mais alimenta minha alma sedenta desse amor familiar.
     Nesse paradoxo, entre dor e prazer, não deixo o pensamento esvaziar minhas lembranças, pelo contrário, faço questão de mantê-las vivas e latentes dentro do peito, grato a Deus por esse ardor sem medida.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

BENDITAS CONEXÕES

     Os olhos estavam fitos na estrada, mas os pensamentos roçavam as nuvens. Enquanto os pneus agradeciam o novo asfalto da BR 429 e a viagem era embalada pelo som abrasileirado do saxofonista francês, Idriss Boudrioua, minha reflexão tomava como ponto de partida o título do trabalho musical deste instrumentista.
     Há vinte cinco anos realizando essas parcerias com artistas brasileiros, Idriss lançou em 2004 o disco “Paris-Rio”. Na capa, o virtuose apenas atravessa uma avenida imaginária que divide os dois países. De um lado, morros, botequins, metrô e Cristo Redentor refletem a cidade maravilhosa; do outro, bares, bistrôs e a Torre Eiffel evidenciam a cultura francesa. Tudo isso deflagrou a importância das conexões, assim tem sido boa parte da minha trajetória profissional como professor.
     Nesses quase vinte anos de ofício, muitas foram as conectividades. Algumas realizadas no Estado do Matogrosso do Sul. Criei mentalmente a capa da minha história de ensino. Campo Grande fundindo-se com Sidrolândia, Camapuã, Bela Vista, Jardim e Bonito. Agora esta avenida abstrata encontra-se na cidade de Presidente Médici, interligada à outra interiorana rondoniense, a pacata Alvorada do Oeste. Ali, outras experiências foram acrescentadas no convívio com alguns alunos da Escola Santa Ana, entre os meses de julho e outubro de 2011. Algumas cenas ficaram registradas: Abdiel e suas brincadeiras com as redações que produzia, sustentando seus convencimentos exagerados; Luciana e sua fome, não só de aprendizado, mas pelas guloseimas da cantina; Lilian pelo jeito discreto, mineiro, conseguindo a melhor pontuação no primeiro simulado; Edinon e sua calma em aprender, ensinando-me com o seu silêncio; João Carlos, sempre munido de simpatia e espontaneidade; Helen e Caroline com suas extravagantes atitudes, sempre exalando toda energia peculiar da juventude; Abraão e seu sotaque nordestino, trazendo ares sergipanos para a sala de aula; Gisele, Élida e Luanny, disputando o domínio dos conteúdos, que apesar da tenra idade, já demonstram competência e seriedade. Marilete, Favíola, Nicolas, Patrícia, Luana, Carlos, Liliana, Vicente, Adriana, Jackson, Katiully, Jéssica e as duas Simones, enfim, todos contribuíram para que ampliasse o meu universo. Isso sem contar a extraordinária receptividade proporcionada pelo Nivaldo, Diretor da escola onde tudo isso aconteceu. É tanto, que até fiz parte da festa de comemoração dedicada aos funcionários, regada à muita música regional e ao carneiro de tempero inesquecível.
     Nessas andanças, em veredas tão diversificadas, só resta agradecer a Deus por ter me agraciado com esta sublime profissão, servindo de ponte para que novas experiências fossem inseridas na minha vida, alargando as fronteiras do conhecimento.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

NA CONTRAMÃO

Bom mesmo é ser torto como o jazz
Esguio como a bossa e o samba
Andar na corda bamba
Trocar as mãos pelos pés
Pegar atalhos e fugir da direção
Abandonar a canga
Dar pano pra manga
Provocar confusão

Assim funciona a liberdade
Dá um nó em quem não entende
Mas para quem se rende
Sabe que a arte é verdade
Não se compra em mercado
Vive nas ribanceiras
Nas miragens, trincheiras
Longe do trânsito engarrafado

Meio trôpegos, cambaleantes e incertos
Os demais transeuntes são arrastados
E a correnteza que os leva amarrados
Descambam em vários desertos
Com os olhos embotados de terra
Entre pedras, poeira e fumaça
Não percebem que a vida passa
E que já perderam a guerra

Assim seguem felizes e escravizados
Como se comessem manjares
E lá de cima de seus altares
Fossem ovacionados
Enquanto isso a mídia agradece
Segue empurrando a insossa comida fria
Que desce macio na barriga vazia
Do povo que sorri e perece.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

SOPRO DE DEUS

Aqui em Rondônia o sol reina soberano
Trabalhador incansável
Não tem feriado
Não tira férias
E à noite ainda faz hora extra
Estendendo seus raios invisíveis

Pela manhã
Sem dar tréguas
Lá está ele com sua cara vermelha
Enfurecido
Pronto para tostar minha pele

Desobedece as leis das estações
Compra briga com a lua
Rompe amizade com as nuvens
Engabela o vento
Aterroriza a terra
Afugenta as chuvas
Não barganha com ninguém

Em agosto seu ego se inflama
Torna-se pedante, intragável
Sua cólera visceral empomba
Então veste sua capa escarlata
E desfila galante
Exibindo sua arrogância mórbida

Às vezes ele se dá mal
Quando isso acontece
Murcha as orelhas
Afina a voz
Esconde seu sorriso amarelo
E se desfaz ao simples
Sopro frio de Deus
para aquecer meu coração campograndense.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

CONVIVÊNCIA PACÍFICA

     O convívio com a corrupção vem de longa data e não se limita apenas na questão política, engloba todos os setores.
     Quando esse termo é mencionado logo vem à imagem ilicitudes de grande porte, tais como: lavagem de dinheiro, desvio de verbas, vantagens indevidas, apoderação de bens públicos etc, mas a corrupção tem se alargado em grande escala e se avolumado de tal forma que já faz parte do cotidiano. Sua manifestação pode estar presente em momentos corriqueiros: boicotar uma simples fila de banco, adquirir produtos piratas, fazer ligações gratuitas de um orelhão com problemas, falsificar a assinatura para que um determinado pai não saiba das notas baixas do filho, enfim, esse festim com a ilegalidade torna-se algo comum.
     Os que não compartilham com essas atitudes fraudulentas estão fadadas ao fracasso, ainda não aprenderam a viver de forma ousada, sofrerão as consequencias de ficarem ultrapassados. Para sobreviverem nesse campo minado precisam se adequar ao “esquema”, abandonar os princípios éticos e morais para se aconchegarem no recanto dos espertalhões. Assim é a lei da vida moderna: “O mundo é dos mais espertos”. Esse é o ditado popular que rege as regras da sociedade.
     Diante de tal realidade, a consciência torna-se petrificada, imune aos padrões divinos. Os inocentes andam na contramão desse sistema avassalador e aos poucos precisam barganhar. A vida é curta e não pode ser desperdiçada com a frágil dignidade.
     No Brasil, tais deteriorações não são mais encaradas como escândalos. Os menos favorecidos suportam toda a pressão, amordaçados pelo medo. O descaso político já é um perfil definido e o massacre prevalece de forma brutal, basta aceitar a situação e escorar na esperança de dias melhores.
     “A vida é um eterno baile de máscaras”, assim afirmou Machado de Assis. Para Rui Barbosa, “Quanto mais conheço os homens, mais admiro os cães”. Essa é a pintura projetada na tela do mundo. As cores vivas da corrupção há muito tempo já embotaram a honestidade. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

RECEITA TUPINIQUIM

1 pitada de Toninho Horta
1 quilo de Chico Buarque
2 quilos de Tom Jobim
1 masso de Pixinguinha
2 colheres de sopa bem cheias de Villa-Lobos
1 colher de Victor Assis Brasil
1 xícara de Nico Assumpção
200 gramas de Edu Lobo
500 gramas de Ivan Lins
2 porções de Rosa Passos
Luiz Gonzaga a gosto.

Para o molho
Jackson do Pandeiro
Ernesto Nazareth
Sivuca
Rildo Hora
João Gilberto
Raphael Rabello
Vinícius de Moraes
Francis Hime
Djavan
João Bosco
Joyce e
Leny Andrade.

Refogue tudo na panela de barro
e sirva bem quente
acompanhado de
Noel Rosa
Cartola
Ary Barroso e
Hermeto Pascoal.

OBS: Essa comida possui muitas calorias
Além de vitaminas M, P e B
Não contém contra indicações
E seu uso abusivo pode causar
o vício do paladar apurado
aprimorando as papilas gustativas.

Precauções:
Evite misturar com outros tipos de alimentos, tais como:
Sertaneja, pagode, funk carioca, axé, calypso e seus derivados.
Tais gêneros estragam o prato principal
Causando acidez excessiva
Náuseas
Irritações diversificadas
Leseiras crônicas
E outros danos irreversíveis.

Se os sintomas persistirem
Só resta uma saída:
Desintoxicação
Muito jejum
E oração.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

LEVITAÇÃO


     Os olhos esfuziantes, ouvidos atentos aos acordes dissonantes, pernas agitadas pelo ritmo torto e envolvente, dedos como baquetas desferindo golpes certeiros em tudo que se vê pela frente e as nuvens roçando os cabelos. Assim sou tomado pela música e levado para muito longe daqui. Para onde vou, não sei, mas sinto que os pés se desprendem do chão.
     Nesses momentos de delírio musical, muitas imagens também se apoderam desse estado de espírito trazendo recordações ainda frescas na memória: as inúmeras visitas ao Hamurabi (o maior sebo de Campo Grande/MS), garimpando raridades; os primeiros contatos, ainda no tempo das espinhas, com Metheny, Bireli, Jaco, Wes, Ritenour, Toots, Weckl, Miles, Parker, Coltrane e tantos outros consagrados artistas jazzísticos que guarneciam as prateleiras do primo Edson di Carvalho; os shows de Gil, Djavan, João Bosco e Gal, acompanhados pelos talentosos instrumentistas, Armando Marçal, Kiko Freitas, Marcelo Martins, Nelson Faria, Carlos Balla, Marcelo Mariano, Marcos Suzano, Arthur Maia, Jurim Moreira etc, todos assistidos no Palácio da Cultura, na cidade morena, durante a década de 90; os diversos cds, verdadeiras relíquias que forram a parede do meu quarto e tantas outras sensações formam o coquetel de prazer e êxtase que tomam conta da cena.
     Assombrosamente encantada, vislumbrando tal levitação, minha esposa, Carina, resolveu registrar esse momento no belo poema “Na beleza do Jazz”:
   
Nem toda boca nasceu para falar
Nem toda mão, para trabalhar
As pessoas não sabem
Meu corpo é diferente
Fica ausente quando ouço alguém tocar
A beleza da música
Do Jazz
Da Bossa Nova
Que nunca envelhecerá.

Nem toda boca nasceu para falar
Garanto que a minha degusta as notas
Ela sabe saborear
A arte da bateria harmônica
Da guitarra, do solo de baixo,
a mistura
o som o som o som
Algo diferente
O meu corpo fica ausente
Quando ouço alguém tocar. 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

PRA QUEM SABE OUVIR

     Há um disco excepcional do compositor, Edu Lobo, cujo título é “Corrupião”, lançado em 1994, pelo selo Velas. Na capa, o pássaro está pousado sobre a cadeira onde se encontra o artista. Trata-se de uma das aves mais lindas e de voz mais melodiosa deste continente, comum em áreas da caatinga e zonas secas abertas, onde pousa em cactáceas, e também em bordas de florestas e clareiras, nos locais mais úmidos. Vive aos pares. Não costuma acompanhar bandos mistos de aves.
     Nas composições, Além de Edu, Aldir Blanc e Chico Buarque completam o naipe de mestres. Já os músicos, Nico Assumpção, Jurim Moreira, Marcio Montarroyos, Gilson Peranzetta, Paulo Bellinati, Teco Cardoso, Mauro Senise, Mauricio Einhorn, Serginho trombone e Marcos Suzano formam o restante da equipe de craques, tornando essa obra antológica.
     Uma das faixas tem o título de “Ave rara”. Assim são esses artistas, como o corrupião. Poucas pessoas são capazes de ter a sensibilidade para admirar seu canto. Para os ignorantes, a raridade torna-se em trivialidade, como o canto choco e uníssono do pardal. Na vida não é diferente, os mais sensíveis também fogem à regra, estão praticamente em extinção, não podem ser vistos em qualquer árvore, muro caiado ou balaústre.
     Por isso, Edu está sorridente na capa do disco. Ele também é uma espécie de corrupião. Os corrupiões se entendem. O autor e os poucos privilegiados nesta vida são capazes de emitir o som divino que carregam. Assim sou eu.
     Minha esposa, Carina, foi capaz de ouvir esse lamento, esse choro. Daí surgiu seu lindo poema “O canto do pássaro” que faço questão de postar aqui:

As aves cantam por causa de seu bom estado de ânimo
cantam para chamar, conquistar e alertar
elas cantam quando estão tristes
porém nunca deixam de cantar
na calada de uma madrugada
lá estão elas , cantando por algo
seus sons ultrapassam limites e chegam aos nossos ouvidos
parecendo sempre a mesma sonoridade de todos os dias
mas não é.

A comparação da ave com você é óbvia
você canta todos os dias
canta na alegria e na tristeza
na conquista, na luta e na pobreza
ninguém sabe seus momentos reais de dor
ninguém  sabe o que está acontecendo
e todos confundem o seu canto
achando ser o mesmo de todos os dias
mas não é.

A única realidade
você só quer pedir socorro com um belo cantar
pedir ajuda cantando desesperadamente
o cantar também é para se defender
é para assustar o inimigo
espantar a tristeza
como  faz o pássaro
emitindo vários sons na natureza.

O pássaro é lindo e indefeso e só sabe cantar
fala não é típica de sua essência
também passa por apuros
por isso emite o mais belo som
como tentativa de fuga para o esquecimento
mas sua beleza, sua pureza o tornam inesquecível
sempre terá alguém de olho em tal raridade
que não faz mal a ninguém
e quando quer se defender
solta o mais lindo som como pedido de socorro
e todos pensam mais uma vez que está tudo bem.

Assim é com você
sua beleza, sua pureza o tornaram inesquecível
sempre haverá pessoas de olho nas raridades de Deus
e quando você se defende solta outro canto
para quem não sabe lhe escutar
pensa que está tudo bem
mas não é assim.

terça-feira, 26 de julho de 2011

TUDO EM SEU LUGAR

     A Música Popular Brasileira é um poço fundo de ilusões. Em suas águas cristalinas e infindas, cada banho é uma sensação de frescor diferente. Ela instiga a vontade de beber cada vez mais dessa fonte. Muitas são as vezes em que preciso retirar toda essa poeira vermelha da vida que insiste em manchar minha tez. Então, apenas ligo o chuveiro sonoro e as águas descem como torrentes.
     O título desse artigo tem como base o poema “Cada tempo em seu lugar”, do exímio compositor, Gilberto Gil. Uma obra-prima. Receba os respingos dessas gotas límpidas:

Preciso refrear um pouco o meu desejo de ajudar
Não vou mudar um mundo louco dando socos para o ar
Não posso me esquecer que a pressa
É a inimiga da perfeição
Se eu ando o tempo todo a jato, ao menos
Aprendi a ser o último a sair do avião

Preciso me livrar do ofício de ter que ser sempre bom
Bondade pode ser um vício, levar a lugar nenhum
Não posso me esquecer que o açoite
Também foi usado por Jesus
Se eu ando o tempo todo aflito, ao menos
Aprendi a dar meu grito e a carregar a minha cruz

Ô-ô, ô-ô
Cada coisa em seu lugar
Ô-ô, Ô-ô
A bondade, quando for bom ser bom
A justiça, quando for melhor
O perdão:
Se for preciso perdoar

Agora deve estar chegando a hora de ir descansar
Um velho sábio na Bahia recomendou: "Devagar"
Não posso me esquecer que um dia
Houve em que eu nem estava aqui
Se ando por aí correndo, ao menos
Eu vou aprendendo o jeito de não ter mais aonde ir

Ô-ô, Ô-ô
Cada tempo em seu lugar
Ô-ô, Ô-ô
A velocidade, quando for bom
A saudade, quando for melhor
Solidão:
Quando a desilusão chegar  

segunda-feira, 25 de julho de 2011

PRECISO SER

Preciso andar ligeiro
acordar cedo
Ir à igreja
Bater cartão
Andar na moda
Comer salada
Ser aprovado
Pelo patrão

Preciso saber nadar
Subir escada
Lavar o carro
Fugir do não
Encolher os ombros
Estancar o choro
Aprender o ofício
De olhar pro chão

Preciso aceitar o açoite
Ser muito forte
Esquecer a morte
Saber a direção
Abrir o sorriso
Acostumar com a saudade
Encarar a dor
De andar na contramão

Preciso ser discreto
Assoviar mansinho
Pisar macio
Pelo salão
Gostar de sítio
Ganhar dinheiro
Economizar
Fugir da ilusão

Preciso andar com rédeas
Quebrar os discos
Ouvir as regras da sociedade
Manter-se na posição
Virar fantoche
Respirar, até pode
Contanto que sobre
Oxigênio nesse balão

Preciso ser outro homem
Agradar a todos
Negar a tudo
Não sair de encenação
Apenas para Deus
Não preciso ser
Além do que sou
Aqui dentro do coração

ETÉREA

     Creio que os sons já soavam no ventre da minha mãe. Lá dentro ela ensaiava para nascer comigo. Hoje vive aqui, latente, assombrosamente viva dentro de mim. Obrigado, Deus, por me conceder esta música que nunca tem fim.

Não posso tocá-la
Mas a sinto sempre aqui
Companheira das horas amargas
Redoma que guarda meus anseios
Asas do refúgio e da necessidade

Não tens nome, nem cheiro
Existe apenas
Às vezes quieta, tresloucada
Mil faces rarefeitas
Embutidas na dor e na saudade

Bússola norteadora dos meus passos
Notas perfeitas e eternas
Correnteza que arrasta a solidão
E me arremessa nas rochas
Na vazante do descanso

Minha irmã verdadeira
Frenesi, mistério, delírio
Êxtase, febre, loucura
Vestígios de sonho e vida
Cúmplice do prazer e da ternura

Convidas-me para dançar
Uma valsa, um tango
Ou embriagante milonga
Trôpego me desmancho
No silêncio de sua pauta solta no ar

Sem ritmo ou compasso
Apenas sigo meu destino
Solto em teus braços
Ó encantadora música
Sopro divino onde me refaço

quarta-feira, 20 de julho de 2011

QUANTO VALE?

     No dia 14 de julho de 2011, às 23:00 h, no aeroporto de Ji-Paraná/RO, uma grande emoção tomou conta do lugar e se avolumou de tal forma que foi difícil conter o choro. Era a chegada de alguns membros da família Lacerda. De longe se podia ver os cabelos brancos dos integrantes que vinham de Campo Grande/MS para comemorar minha colação de grau, cerimônia realizada na Ulbra, no dia posterior, reunindo quase 60 bacharéis em Direito. Dentre os parentes, os tios, Misa (Misael Hélio), Sabirila Hair, vulgo Frango Vit (Elino), Zé Paganela (José Lacerda) e Maria do Rancho (Maria), além dos primos, Téiu, (Luís Fábio), Amiltu Ceza (Hilton Cézar) e Borba (Floriano Neto).
     Parte desta festa já havia começado com a comemoração do meu 1º aniversário de casamento, além da chegada de Madrinlurde, minha mãe querida. Os demais foram se acomodando aos poucos. Frango Vit, Misa, Téiu e Amiltu ficaram hospedados no hotel do Salim, uma espécie de aventureiro que contava histórias vistas apenas nos filmes do Spielberg. Aos poucos, Frango Vit foi instigando o hoteleiro a revelar seus feitos por todo o Brasil, inclusive três fatos muito intrigantes: ter sido sacristão de Padre Cícero, vendedor de bainha para foice e amigo íntimo de Maria Bonita, mulher do cangaceiro Lampião.
     Zé Paganela ficou hospedado na casa de Suvino (Antenor Lacerda), pai de Ursulão, vulgo Nanô. Maria do Rancho e Borba ficaram na casa do Bacharel. Maria ficou no cantinho das comadres, juntamente com sua parceira inseparável, Madrinlurde. Ao lado da cama de Ursulão, quem passasse por ali saberia que se tratava dos aposentos de Borba, uma vez que o colchão estava repleto de apetrechos: uma trena, um martelo, dois rolos de veda-rosca, uma chave de fenda, uma cola para cano, um chapéu de expedicionário, uma botina e as coordenadas descritas numa folha de sulfite, apresentando dicas de como se portar durante esses dias de hospedagem, tais como fugir de qualquer espécie de “tico-tico nervoso” (termo criado por Maria do Rancho) e se apoderar de todo tipo de potocas, pilhérias, mungangas e presepadas em geral para descontrair o ambiente.
     Durante o período de quase três dias, a alegria, espontaneidade e criatividade foram os ingredientes essenciais que tornaram esses momentos inesquecíveis, registrados na memória de cada um dos participantes. Dentre vários acontecimentos, alguns merecem ser descritos com minuciosidade: o fato de Borba e Rudia Monstra terem ficado badalando até altas horas da madrugada, lembrando dos episódios vivenciados por eles, afugentando o sono de Ursulina (Carina), esposa do anfitrião; enquanto isso, no outro quarto, as comadres tagarelavam e davam topadas no escuro, tentando acender a luz. No outro dia, até às 8:00 h, as duas já tinham aguado as plantas, ido à feira, feito o café e preparado o baião de dois para se juntar ao churrasco feito a quatro mãos: Moacir, sogro do Bacharel, Borba, Tio Misa e o próprio Rudia; as noites, regadas à cerveja, vinho e refrigerantes, se estendiam até tarde, enquanto Misa, apoderado de um violão e Ursulão, atracado à tanajura (instrumento de percussão), entoavam músicas de artistas do cancioneiro popular, tais como Djavan, Zé Ramalho, Luiz Gonzaga, Benito de Paula e outros nomes da MPB. Várias histórias eram lembradas na roda musical que se formava embaixo da mangueira, no fundo do quintal de casa. Vale ressaltar dois episódios inéditos e estranhos, dentre eles o fato de Ursulão ter descoberto, por acaso, que sua digníssima gostava de Chico Buarque. Segundo ela, as músicas desse artista transmitem uma paz, pois sua voz ecoa macio. Algo fora do normal, uma vez que para a maioria das pessoas, a primeira impressão é de puro repúdio. O outro caso espantoso foi em relação ao Borba que agora apresentava sintomas do “Complexo de Aguimar”, popularmente chamado de DAME (distúrbio do asseio matinal exagerado). Doença que atinge pessoas de várias idades, provocando um excesso de banhos, inclusive nas primeiras horas da manhã.
     A colação de grau também foi marcante. O Bacharel estava todo “entanguido” (termo nordestino que designa a rigidez do corpo, pressionado pela roupa apertada), usando uma vestimenta que mais parecia à do Padre Solimário (primo do mesmo). As fotos também formaram outros momentos hilários, o fato de Borba ter se posicionado com todo seu estilo, com uma das pernas estendidas e a outra segurando o peso do corpo, meio acocorado, mostrando todo seu equilíbrio. Trata-se de uma pose característica dele, um de seus talentos invejáveis e imbatíveis. Também não poderia ficar esquecido o momento em que os formandos lançaram os capelos ao vento. Mais de sessenta foram ao chão, mesmo assim, Ursulão foi capaz de visualizar o seu, pois era o único que possuía aquele tamanho gigantesco, fazendo jus a alcunha de “Rudia Monstra”.
     Quanto vale um sorriso frouxo, um abraço apertado, um beijo carinhoso na face, um olhar amoroso, cheio de gratidão? Momentos assim não têm preço, são imensuráveis, não podem ser medidos, ultrapassam os limites do tempo. Sei apenas que eles estão eternizados dentro de mim, como pérolas engastadas no coração.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

ÁGUAS PERIGOSAS - Conto do livro "As presepadas de Dalai", 2008

     Juda foi o maior beneficiado pelas gentilezas empregatícias de Dalai, foi com ele que aconteceram as principais presepadas e aventuras, uma delas foi a visita às cataratas. Na verdade, as águas não passavam do joelho.
     Para que o passeio não fosse interferido por nenhum imprevisto, Dalai realizou uma espécie de palestra para a equipe formada por Juda, Yarabela e Beth Mundrongo, detalhando o local, descrevendo os perigos mais iminentes, precavendo-se de qualquer espécie de infortúnio. A organização e a tática sempre foram aliadas ao comportamento de Dalai, seu espírito aventureiro não dispensava certas precauções, não gostava de correr riscos, mantinha-se numa linha mais metódica, calculista, a fim de que nada pudesse sair do seu comando estratégico. Sendo ele o único que conhecia bem o local onde seria realizado o acampamento, as coordenadas preliminares foram apresentadas:
     - Olha, gente, lá a queda d’água é violenta, o barulho é ensurdecedor. Alguns até dizem que as cataratas para onde vamos são águas assassinas, portanto todo cuidado é pouco. Outra coisa, vocês precisam levar tampões reforçados para vedar o ouvido, por isso precisamos acampar o mais distante possível, para que não tenhamos os tímpanos estourados. Sugiro, inclusive, que ao aproximarmos dessas águas revoltas, usemos um capacete bem resistente ou até uma roupa de astronauta, se for o caso. Repito, todo cuidado é pouco.
     Juda estava um pouco preocupado, não conhecia o local e temia a violência das cataratas. Outra coisa o pertubava, era o fato de perceber que a professorinha já se engraçava com Dalai e a ele restaria apenas a Mundrongo. Naquela altura, era difícil saber o que lhe causa mais pavor, se as águas violentas ou aquelas pernas recheadas de catombos, perebas e varizes.
     Restando dois quilômetros para chegarem ao local, a turma se apoderou dos equipamentos e tomou os cuidados necessários. Mesmo com os vidros do carro fechados, o esturro das águas já começava a ameaçar, imediatamente pegaram vários chumaços de algodão e vedaram o ouvido. Quando perceberam que os vidros do carro começavam a trepidar, era o sinal de que não poderiam prosseguir e ali seria o limite para armarem as barracas e acamparem.
     - Da última vez que tive aqui, o barulho não era tanto. Lembro-me que consegui acampar mais próximo das cataratas. Não podemos brincar com a força da natureza, é melhor ficarmos por aqui – afirmava Dalai.
     Enquanto isso, Yarabela, Beth Mundrongo e Juda preparavam-se para ver a maior queda d’água da região, que perdia apenas para as cataratas do Niágara.
     - Epa, esperem aí, onde vocês acham que vão? – retrucou Dalai.
     - Queremos ver de perto esse fenômeno da natureza – disse Mundrongo.
     - Nada disso, vamos ver daqui.
     Imediatamente Dalai pegou os binóculos e capacetes que estavam no carro, distribuiu entre o grupo e orientou que ficassem vislumbrando dali mesmo.
     - Nossa, é enorme! – exclamava Yarabela.
     - Meu Deus, nunca vi nada igual! – afirmava Mundrongo.
     - Caramba, Dalai, a queda d’água é muito forte! – comentava Juda.
     - Eu não disse, não tem como chegar lá perto, é uma visão linda, mas aterrorizante. Temos que ficar por aqui mesmo.
     Ao anoitecer, alongados naquele paraíso, saboreando uma picanha e ao som de "Antoin Binidito" (na verdade, Tony Bennett), que às vezes tornava-se inaudível por causa da violência das águas, embalados pela cerveja, a turma comemorava o acontecimento. Dalai havia levado apenas uma barraca, que por sinal já estava sendo utilizada por ele e Yarabela.
     - É, já está na hora de dormir – mencionou Juda.
     - Que nada, vamos conversar mais um pouco – disse Mundrongo.
     Juda tentava se esquivar, procurando um jeito de fugir daquela visão que o atormentava. Nem o caminhão da Skol poderia fazê-lo tornar um herói suficiente para encarar aquela bagaceira, portanto a saída emergencial foi entrar na barraca e tentar dormir ao lado do casal.  A noite parecia estar mais longa, as águas assustadoras batiam com força nas pedras, espantando o silêncio e o sono de Juda, sem contar os gemidos da professorinha que começavam a ficar mais intensos naquele recinto apertado.
     - Não estou mais aguentando esse furdunço, os ovos já estão latejando! – disse Juda, abrindo o zíper da barraca.
     Dalai tentou abafar o riso, mas não conseguiu e soltou uma gaitada forte. Juda investiu pesado no resto das cervejas e ficou por ali, soltando baforadas, ouvindo as potocas da Mundrongo e encarando a lua que brilhava intensamente naquela madrugada inesquecível.

terça-feira, 21 de junho de 2011

PROPOSTA INDECENTE - Conto do livro "As aventuras de Borba" (2007)

     Era um domingo. Bororo, Bozo, Giseuda, Gisélia, Humberto, Macumbé, Fernando, Zana e Borba brincavam de esconde-esconde. Mesmo sendo mais inocentes que as crianças da cidade, eles tinham seus momentos de malícia. Borba gostava de se esconder com Zana. Sempre achavam um bom lugar para permanecerem ocultos, de preferência que durasse muito tempo para que fossem encontrados.
     Finalmente a oportunidade surgiu. Borba teve a chance de pôr em prática mais uma de suas ideias geniais: lembrou-se de uma caixa de lápis de cor, da fábrica Faber Castell, a preferida pelos alunos, que havia ganhado da mãe. Mesmo gostando do presente e assumindo o risco de fracassar com o plano, arriscou.
     Trancaram-se no galpão. Zana estava com um vestido estampado, mostrando parte das pernas grossas e empoeiradas, aquelas que roubavam algumas noites de sono do nosso herói. Ele olhou para o chão, meio envergonhado, pensando em desistir da ideia, mas venceu o medo e disse:
      - Zana, dou-lhe esse lápis de cor, vermelho, novinho, da Faber Castell, se você mostrar sua calcinha. Ela arregalou o olho, pensou na possibilidade de ganhar algo tão especial, mesmo correndo perigo de ser flagrada, mas aceitou a proposta. Pediu para que Borba fechasse os olhos e só abrissem quando ela mandasse. Assim ele o fez.
      - Pronto, pode abrir. Zana, fechando os olhos para não o encarar, ergueu e abaixou a saia num ritmo acelerado, mas foi o suficiente para que Borba ficasse inerte, sem fala, extático como uma estátua. Com os olhos luminosos, guardando a cena para a eternidade. Mesmo num relance, jamais esqueceu desse momento. Mas ele precisava ver mais além. Estava disposto a aumentar a proposta para saciar sua curiosidade.
      - Dou-lhe a caixa inteira, se você abaixar só um pouquinho a calcinha – disse Borba, entusiamado.
      Zana disse que aí já era demais. Que não faria tal coisa. Borba insistiu e para convencê-la, tirou da sacola que carregava a tão almejada caixa. Mostrou os lápis um a um, cor a cor, buscando argumentos que conseguissem fazê-la mudar de opinião. Foi nesse exato momento que ele passava a exercer o dom natural de vendedor. Fez a propaganda da Faber Castell com tanta ênfase que, se fosse visto pelos diretores da empresa, teria sido imediatamente contratado, mesmo com a sua idade precoce. Zana cedeu. Pediu mais uma vez que ele fechasse os olhos. Desta vez Borba deixou escapar pelas frestas dos dedos a visão tão esperada. Acompanhou todos os movimentos. A barra da saia ficou presa pelo queixo da moça e a calcinha até os joelhos.
      - Pronto, pode abrir.
      Borba encarou, sentiu o coração acelerar, o suor escorrer pela testa e a respiração mais ofegante. Sua inocência extinguia-se por completo. Já poderia dizer que tinha visto as partes íntimas de uma mulher, pois o máximo que conseguira até o momento era apenas uma foto de uma atriz, numa revista, com parte dos seios de fora. Agora não, ele estava diante de uma cena real. Era Zana, exibindo-se.
      - Achei vocês, achei vocês! – gritaram os meninos.
      Voltaram a brincar, menos Borba que se ausentou, indo até o curral para meditar no que tinha visto. Ficou horas olhando para o nada, mirando o horizonte.
      Borba tornava-se homem. 

terça-feira, 14 de junho de 2011

GERANDO EMPREGO - segunda parte (Conto do Livro "As presepadas de Dalai", 2008)

     Bronson foi outra vítima da generosidade de Dalai. Vindo de Pedro Gomes, cidade pacata do interior de Mato Grosso do Sul, o primo estava desamparado, não conhecia muitas pessoas na cidade grande e havia encerrado sua carreira de jogador de futebol. Não demorou muito para que Dalai também desse “aquela forcinha”. A estratégia era a mesma: sair nas baladas e apresentar-lhes a moçada, assim ficaria mais fácil encaixá-lo nesse novo universo.
     Mesmo no agito, rodeado de amigos e, principalmente, “amigas”, Dalai não descuidava, sempre atento às reações de Bronson, observando suas maneiras, trejeitos, manias, querendo buscar algo que combinasse com seu estilo. Seu coração amolecia quando se punha a pensar que o tempo estava passando e era necessário arranjar-lhe alguma ocupação.
     E aí, Bronson, já arranjou algum esquema? – incitava Dalai.
     - Tranquilo, está tudo sob controle.
     Dalai abria aquele sorriso maroto e falava em pensamento: “garoto esperto, puxou a mim, só dei um empurrão e ele já está com aquela pegada violenta. Não nega a raça!”.
     Dalai apresentou-lhe uma linda morena, fez uma média com os dois, soltou algumas pilhérias, quebrando o gelo da timidez, deu uma piscadela para o Bronson e se ausentou por algumas horas, deixando-os à vontade. Não demorou muito para que o celular do mestre começasse a tocar sem parar, de tanta insistência, Dalai resolveu voltar ao local e foi surpreendido por uma cena hilária: A moça já estava atracada com outro rapaz e sob a mesa de Bronson, três tubaínas, uma bomba, uma cuia de chimarrão, uma paçoca, uma foto do Bimpo, seu cachorro de estimação e um caderno de 12 matérias.
     - Que marmota é essa, Bronson? – indagou Dalai, já engasgando de tanto rir.
     - Está tudo sob controle, já anotei o telefone da morena. Ela gostou muito de mim.
     Dalai folheou o caderno e percebeu o potencial do primo em anotações, todas muito organizadas, imediatamente um facho de luz invadiu seus neurônios:
     - Você já está empregado, Bronson, as empresas telefônicas precisam de uma pessoa com esse talento. Nunca vi ninguém anotar tantos telefones em tão pouco tempo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

NICANOR, O TERRÍVEL (Conto do livro "As aventuras de Borba", 2007)

     Algo que também acontecia muito nessa época eram as fortes dores de dente provocadas pelo excesso de balas, pirulitos, suspiros, marias-moles, paçocas, chicletes e outras guloseimas que os meninos adquiriam com os serviços prestados na fazenda. Eram fregueses assíduos do Loro, de Seu Raimundo Batista, da Dona Vá e Dona Elvira. Borba também furava as latas de leite condensado que eram vendidas no bar de sua mãe, o - “Nossa Senhora Aparecida” e tomava num gole só. Borba, Bozo, Bororo e os demais companheiros investiam suas economias nessas açucaradas delícias e o prazer tornava-se mais tarde em cáries que se alastravam pela boca. Foi exatamente nesse período que Borba passou a ter novas ideias.
     Na cidade havia um homem muito temido pelos meninos: Nicanor, um dentista gordo que carregava uma enorme mala com seus apetrechos odontológicos – um boticão e uma seringa para anestesia. O povo comentava que ele só trabalhava “melado”, se estivesse sóbrio, esquecia-se de como exercer a profissão. Quando se aproximava do paciente, que a essa altura já estava anestesiado de medo e orando sem cessar, sacava de seu alicate e pedalava a engenhoca que usava para realizar as precárias restaurações. Mas na maioria das vezes o procedimento aconselhado pelo doutor e com o aval da família era esse:
     - Arranca essa bexiga!             
     Por isso, era comum que os meninos, em plena flor da juventude, já dispunham de aparatos que na época denominava-se de “perereca”. Nicanor, “o terrível”, deixava o suor escorrer pela face larga e cair sobre o pobre paciente que muitas vezes saía com os lábios tostados pelo fogo que aquecia as ferramentas de trabalho do zeloso profissional.
     Ninguém tinha coragem suficiente de encarar o velho Nicanor, nem o bravo Bororo. Todos corriam dele, como o diabo foge da cruz de Cristo. Quando o avistavam, pediam-lhe até a benção. Por isso, quando as dores de dente começavam a incomodar, valia recorrer a tudo: simpatia, nacos de fumo para amortecer a gengiva, goles de água ardente que ficavam pressionados na boca para amortizar o sofrimento, qualquer coisa, menos ir ao Nicanor. Com o Borba não era diferente, também se valia de todos os recursos, a fim de que seu pai, o velho Suassuna, não o mandasse para a cadeira do famigerado dentista.
     Numa determinada noite, depois de haver esgotado todas as possibilidades de fugir daquele encontro fatídico, Borba criou uma técnica aprimorada: cerrou os lábios com uma força descomunal, vedando a pressão, deixando que o ar entrasse apenas pelo orifício ao lado da boca, enquanto realizava uma sucção violenta, que o jogou ao chão, desmaiando-o por alguns segundos, mas que ao acordar, sentiu a sensação de alívio. Era mais uma invenção. Uma ideia iluminada que se perdeu no tempo por não ter sido patenteada por alguma empresa famosa. Uma inventividade que nem a ciência soube explicar. Um simples garoto, um gênio, uma verdadeira máquina humana de sugar, criava uma forma de romper com as terríveis dores de dente. A partir daquele momento a vida do nosso herói mudou. Ao deitar, depois de ter realizado a sua grande descoberta, sonhou com um mundo repleto de chocolates, sendo um bravo guerreiro, que não tinha mais receios de encarar o abominável Nicanor. Agora ele estava livre. Dormiu como um anjo, dando longos suspiros, admirado com seu próprio potencial criativo. 
     No dia seguinte, sentindo-se imune, levantou bem cedo, retirando de baixo do colchão seu estojo abarrotado de moedas e correu ao boteco de Dona Elvira. Comprou todas as espécies de guloseimas que encontrou e as escondeu. Deleitava-se de prazer, como se fosse tomar o elixir dos deuses. Passou dias sem sentir nenhuma fisgada que o incomodasse, mas quando a dor voltava, celebrava seu ritual. Ao fazer a sucção, uma dor fina subia até a cabeça e o nocauteava, porém a sensação de alívio era instantânea. Com o tempo, Borba aperfeiçoou a sua técnica e já suportava o baque. Já conseguia manter-se em pé.
     Bororo e Bozo ficaram sabendo da nova invenção, mas não obtiam êxito quando tentavam realizar tal feito. O mestre criativo executava com perfeição os movimentos com a boca e os outros meninos ficavam admirados com sua técnica apurada. Enquanto os demais faziam visitas constantes ao consultório de Nicanor, Borba empanturrava-se de doces e esquivava-se dos infortúnios causados pelas cáries. Mas os dias de glória estavam contados. Não duraram muito tempo.
     Certo dia, vendendo leite nas regiões vizinhas, a ameaça de dor começou a surgir, mas Borba não se importou, continuou guiando a carroça e iniciando todo o procedimento que ele já sabia como executar com maestria, porém percebeu que todo o esforço fora em vão. Tentou uma vez, duas, três, quatro, cinco vezes, mais uma puxada forte e nada. A dor cortava seus dentes como uma navalha, cada vez mais forte. Borba arriou o cavalo e tentou a estratégia “sucçônica” pela última vez. A pressão foi tão intensa que lhe faltou o fôlego, mas de nada adiantou. Começava o desespero, imaginando-se sob o domínio do truculento Nicanor. Não conseguiu continuar o trajeto e retornou para casa. Foi até o galpão, guardou o animal e teve que apelar para os procedimentos rudimentares: arrancou uma lasca de fumo e ruminou por um bom tempo, mas nada de amenizar o sofrimento. Tomou uma talagada da água ardente “Iracema”, de fabricação própria, feita com muito esmero pelo proprietário João Lacerda Leite, mas sem resultado algum. O jeito foi contar ao pai que não hesitou em mandá-lo para o consultório de Nicanor. Borba ainda argumentou com o velho Suassuna, dizendo ter uma outra solução: seria melhor visitar o Dr. Nêgo, discípulo de Nicanor, que era mais próximo.
     Concordaram com a idéia e ele foi ao encontro do outro dentista. Nesse ínterim, mesmo com a mandíbula latejando, Borba teve outra ideia brilhante e a pôs em prática logo que chegou ao local almejado. Ao avistar o consultório, pôs-se a andar em câmera lenta, macio como uma onça e parou em frente à porta:
     - Seu Nego, seu Nego! (disse sussurrando, de forma inaudível) e voltou para casa, alegando ao pai que havia chamado inúmeras vezes o doutor, bradando em alta voz, mas ninguém respondera. Como já estava tarde, deixou a consulta para o dia seguinte.
     Borba passou a noite em claro. Ao lado da cama: querosene, um litro de “Iracema” vazio e no chão batido, um verdadeiro pretume, encharcado das salivações provocadas pelo fumo. Fez uma oração, pedindo que Deus não o deixasse morrer na cadeira de Nicanor. Dizia ser muito jovem e queria desfrutar mais da vida. De repente, um facho de luz invadiu seus neurônios, trazendo uma nova ideia, uma possibilidade de prorrogar seu encontro com o sádico dentista. Lembrou-se de João Bosco, um primo que estava concluindo seus estudos odontológicos e poderia resolver seu problema e, por ser parente, haveria menos sofrimento. Borba teve o respaldo do pai e imediatamente foi encontrar-se com ele.
     Esperou por alguns minutos na sala de recepção e logo foi chamado para ser atendido. Após explicar toda a situação, já repousado na cadeira de dentista, João Bosco pediu para que ele aguardasse um pouco até a chegada de seu auxiliar. De repente chega o ajudante. Era o Tio Bozo, que ultimamente estava tendo as suas primeiras lições. Borba ficou perplexo e atônito. Por alguns instantes preferiu estar diante de Nicanor. Enquanto os dois averiguavam a boca do nosso herói, ele esbugalhava o olho, preocupado. João Bosco deu as primeiras orientações ao ajudante e saiu, deixando-os sozinhos. Como Bozo não tinha a prática necessária para extrair o molar, nem os trejeitos da profissão, arrancou o que estava latejando e de sobra, um outro que estava sadio, mas apenas uma parte dele, quebrando-o pela metade, causando-lhe uma dor insuportável. Borba deu um pinote na cadeira, como se estivesse empinando uma carroça e levantou com as mãos sustentando o queixo. Voltou para casa, às carreiras.
     No outro dia, o dente já não doía, havia sido extraído, mas ficou por um bom tempo com a “banda” do outro. Daquele dia em diante, não era apenas Nicanor quem lhe causava assombro, mas também o Tio Bozo.  
     Borba passou a torcer para que ele fosse realmente jogador de futebol.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

GERANDO EMPREGO - primeira parte (Conto do Livro "As presepadas de Dalai", 2008)


     Depois da difícil vida de empregado, Dalai passou a investir no ramo de pneus, tornando-se proprietário da loja “Roni Pneus”, mas isso não o impedia de se aventurar em outros negócios, sempre com aquele espírito solidário, buscando ajudar os outros, gerando oportunidades de emprego.
     O primeiro a ser favorecido foi seu primo Vandeco, que morava em Dourados, mas devido à escassez de trabalho, tornou-se guarda de carro. Na verdade ele tinha sido contratado para trabalhar na loja, mas seu talento natural era outro e não passou despercebido pelo olhar clínico de Dalai.
     Na loja, Vandeco, Preto e Nenê revezavam o serviço: cambagem, caster, alinhamento, balanceamento, troca de óleo, enquanto isso Dalai ficava apenas observando os funcionários, mas quando chegavam as garotas, aí ele fazia questão de atendê-las. O tratamento era diferenciado, servia-lhes café, bolo, chocolate, capuccino, água gelada, suco natural, água de coco, sujava-se de graxa, empenhava-se para deixá-las bem à vontade e facilitar o primeiro contato.
    Aos finais de semana, Dalai convidava Vandeco para conhecer alguns lugares: bares, boates, restaurantes, clubes, sempre ambientes recheados de muitas mulheres, já que essa sempre foi a sua principal clientela. Dalai possuía um imã que atraía todas as classes e cores (tailandesas, indianas, polonesas, coreanas, italianas, ruivas, loiras, negras, mulatas, japonesas, alemãs, russas, etc...), mas o primo não acompanhava seu ritmo, as madrugadas eram longas demais para ele.
     - Acorda, Vandeco! – o sono era interrompido com as batidas de Dalai no vidro do carro.
     - Ehea! Ehea! - era o som da risada de Vandeco, muito parecida com a do Pateta, personagem de desenho.
     Dalai sentiu aquele visgo de ideia chegar-lhe à mente, trazendo à tona a principal função que poderia ser desempenhada pelo primo e soltou uma de suas pilhérias:
     - Já sei, Vandeco, você será guarda e meu motorista particular, mas não pode babar em serviço – exclamou, limpando aquela gosma impregnada no banco.
     - Ehea! Ehea!
     - Acelera, Pateta, vamos pra casa, você já trabalhou demais por hoje! – mencionava Dalai, tomando a saideira.