segunda-feira, 27 de junho de 2011

ÁGUAS PERIGOSAS - Conto do livro "As presepadas de Dalai", 2008

     Juda foi o maior beneficiado pelas gentilezas empregatícias de Dalai, foi com ele que aconteceram as principais presepadas e aventuras, uma delas foi a visita às cataratas. Na verdade, as águas não passavam do joelho.
     Para que o passeio não fosse interferido por nenhum imprevisto, Dalai realizou uma espécie de palestra para a equipe formada por Juda, Yarabela e Beth Mundrongo, detalhando o local, descrevendo os perigos mais iminentes, precavendo-se de qualquer espécie de infortúnio. A organização e a tática sempre foram aliadas ao comportamento de Dalai, seu espírito aventureiro não dispensava certas precauções, não gostava de correr riscos, mantinha-se numa linha mais metódica, calculista, a fim de que nada pudesse sair do seu comando estratégico. Sendo ele o único que conhecia bem o local onde seria realizado o acampamento, as coordenadas preliminares foram apresentadas:
     - Olha, gente, lá a queda d’água é violenta, o barulho é ensurdecedor. Alguns até dizem que as cataratas para onde vamos são águas assassinas, portanto todo cuidado é pouco. Outra coisa, vocês precisam levar tampões reforçados para vedar o ouvido, por isso precisamos acampar o mais distante possível, para que não tenhamos os tímpanos estourados. Sugiro, inclusive, que ao aproximarmos dessas águas revoltas, usemos um capacete bem resistente ou até uma roupa de astronauta, se for o caso. Repito, todo cuidado é pouco.
     Juda estava um pouco preocupado, não conhecia o local e temia a violência das cataratas. Outra coisa o pertubava, era o fato de perceber que a professorinha já se engraçava com Dalai e a ele restaria apenas a Mundrongo. Naquela altura, era difícil saber o que lhe causa mais pavor, se as águas violentas ou aquelas pernas recheadas de catombos, perebas e varizes.
     Restando dois quilômetros para chegarem ao local, a turma se apoderou dos equipamentos e tomou os cuidados necessários. Mesmo com os vidros do carro fechados, o esturro das águas já começava a ameaçar, imediatamente pegaram vários chumaços de algodão e vedaram o ouvido. Quando perceberam que os vidros do carro começavam a trepidar, era o sinal de que não poderiam prosseguir e ali seria o limite para armarem as barracas e acamparem.
     - Da última vez que tive aqui, o barulho não era tanto. Lembro-me que consegui acampar mais próximo das cataratas. Não podemos brincar com a força da natureza, é melhor ficarmos por aqui – afirmava Dalai.
     Enquanto isso, Yarabela, Beth Mundrongo e Juda preparavam-se para ver a maior queda d’água da região, que perdia apenas para as cataratas do Niágara.
     - Epa, esperem aí, onde vocês acham que vão? – retrucou Dalai.
     - Queremos ver de perto esse fenômeno da natureza – disse Mundrongo.
     - Nada disso, vamos ver daqui.
     Imediatamente Dalai pegou os binóculos e capacetes que estavam no carro, distribuiu entre o grupo e orientou que ficassem vislumbrando dali mesmo.
     - Nossa, é enorme! – exclamava Yarabela.
     - Meu Deus, nunca vi nada igual! – afirmava Mundrongo.
     - Caramba, Dalai, a queda d’água é muito forte! – comentava Juda.
     - Eu não disse, não tem como chegar lá perto, é uma visão linda, mas aterrorizante. Temos que ficar por aqui mesmo.
     Ao anoitecer, alongados naquele paraíso, saboreando uma picanha e ao som de "Antoin Binidito" (na verdade, Tony Bennett), que às vezes tornava-se inaudível por causa da violência das águas, embalados pela cerveja, a turma comemorava o acontecimento. Dalai havia levado apenas uma barraca, que por sinal já estava sendo utilizada por ele e Yarabela.
     - É, já está na hora de dormir – mencionou Juda.
     - Que nada, vamos conversar mais um pouco – disse Mundrongo.
     Juda tentava se esquivar, procurando um jeito de fugir daquela visão que o atormentava. Nem o caminhão da Skol poderia fazê-lo tornar um herói suficiente para encarar aquela bagaceira, portanto a saída emergencial foi entrar na barraca e tentar dormir ao lado do casal.  A noite parecia estar mais longa, as águas assustadoras batiam com força nas pedras, espantando o silêncio e o sono de Juda, sem contar os gemidos da professorinha que começavam a ficar mais intensos naquele recinto apertado.
     - Não estou mais aguentando esse furdunço, os ovos já estão latejando! – disse Juda, abrindo o zíper da barraca.
     Dalai tentou abafar o riso, mas não conseguiu e soltou uma gaitada forte. Juda investiu pesado no resto das cervejas e ficou por ali, soltando baforadas, ouvindo as potocas da Mundrongo e encarando a lua que brilhava intensamente naquela madrugada inesquecível.

terça-feira, 21 de junho de 2011

PROPOSTA INDECENTE - Conto do livro "As aventuras de Borba" (2007)

     Era um domingo. Bororo, Bozo, Giseuda, Gisélia, Humberto, Macumbé, Fernando, Zana e Borba brincavam de esconde-esconde. Mesmo sendo mais inocentes que as crianças da cidade, eles tinham seus momentos de malícia. Borba gostava de se esconder com Zana. Sempre achavam um bom lugar para permanecerem ocultos, de preferência que durasse muito tempo para que fossem encontrados.
     Finalmente a oportunidade surgiu. Borba teve a chance de pôr em prática mais uma de suas ideias geniais: lembrou-se de uma caixa de lápis de cor, da fábrica Faber Castell, a preferida pelos alunos, que havia ganhado da mãe. Mesmo gostando do presente e assumindo o risco de fracassar com o plano, arriscou.
     Trancaram-se no galpão. Zana estava com um vestido estampado, mostrando parte das pernas grossas e empoeiradas, aquelas que roubavam algumas noites de sono do nosso herói. Ele olhou para o chão, meio envergonhado, pensando em desistir da ideia, mas venceu o medo e disse:
      - Zana, dou-lhe esse lápis de cor, vermelho, novinho, da Faber Castell, se você mostrar sua calcinha. Ela arregalou o olho, pensou na possibilidade de ganhar algo tão especial, mesmo correndo perigo de ser flagrada, mas aceitou a proposta. Pediu para que Borba fechasse os olhos e só abrissem quando ela mandasse. Assim ele o fez.
      - Pronto, pode abrir. Zana, fechando os olhos para não o encarar, ergueu e abaixou a saia num ritmo acelerado, mas foi o suficiente para que Borba ficasse inerte, sem fala, extático como uma estátua. Com os olhos luminosos, guardando a cena para a eternidade. Mesmo num relance, jamais esqueceu desse momento. Mas ele precisava ver mais além. Estava disposto a aumentar a proposta para saciar sua curiosidade.
      - Dou-lhe a caixa inteira, se você abaixar só um pouquinho a calcinha – disse Borba, entusiamado.
      Zana disse que aí já era demais. Que não faria tal coisa. Borba insistiu e para convencê-la, tirou da sacola que carregava a tão almejada caixa. Mostrou os lápis um a um, cor a cor, buscando argumentos que conseguissem fazê-la mudar de opinião. Foi nesse exato momento que ele passava a exercer o dom natural de vendedor. Fez a propaganda da Faber Castell com tanta ênfase que, se fosse visto pelos diretores da empresa, teria sido imediatamente contratado, mesmo com a sua idade precoce. Zana cedeu. Pediu mais uma vez que ele fechasse os olhos. Desta vez Borba deixou escapar pelas frestas dos dedos a visão tão esperada. Acompanhou todos os movimentos. A barra da saia ficou presa pelo queixo da moça e a calcinha até os joelhos.
      - Pronto, pode abrir.
      Borba encarou, sentiu o coração acelerar, o suor escorrer pela testa e a respiração mais ofegante. Sua inocência extinguia-se por completo. Já poderia dizer que tinha visto as partes íntimas de uma mulher, pois o máximo que conseguira até o momento era apenas uma foto de uma atriz, numa revista, com parte dos seios de fora. Agora não, ele estava diante de uma cena real. Era Zana, exibindo-se.
      - Achei vocês, achei vocês! – gritaram os meninos.
      Voltaram a brincar, menos Borba que se ausentou, indo até o curral para meditar no que tinha visto. Ficou horas olhando para o nada, mirando o horizonte.
      Borba tornava-se homem. 

terça-feira, 14 de junho de 2011

GERANDO EMPREGO - segunda parte (Conto do Livro "As presepadas de Dalai", 2008)

     Bronson foi outra vítima da generosidade de Dalai. Vindo de Pedro Gomes, cidade pacata do interior de Mato Grosso do Sul, o primo estava desamparado, não conhecia muitas pessoas na cidade grande e havia encerrado sua carreira de jogador de futebol. Não demorou muito para que Dalai também desse “aquela forcinha”. A estratégia era a mesma: sair nas baladas e apresentar-lhes a moçada, assim ficaria mais fácil encaixá-lo nesse novo universo.
     Mesmo no agito, rodeado de amigos e, principalmente, “amigas”, Dalai não descuidava, sempre atento às reações de Bronson, observando suas maneiras, trejeitos, manias, querendo buscar algo que combinasse com seu estilo. Seu coração amolecia quando se punha a pensar que o tempo estava passando e era necessário arranjar-lhe alguma ocupação.
     E aí, Bronson, já arranjou algum esquema? – incitava Dalai.
     - Tranquilo, está tudo sob controle.
     Dalai abria aquele sorriso maroto e falava em pensamento: “garoto esperto, puxou a mim, só dei um empurrão e ele já está com aquela pegada violenta. Não nega a raça!”.
     Dalai apresentou-lhe uma linda morena, fez uma média com os dois, soltou algumas pilhérias, quebrando o gelo da timidez, deu uma piscadela para o Bronson e se ausentou por algumas horas, deixando-os à vontade. Não demorou muito para que o celular do mestre começasse a tocar sem parar, de tanta insistência, Dalai resolveu voltar ao local e foi surpreendido por uma cena hilária: A moça já estava atracada com outro rapaz e sob a mesa de Bronson, três tubaínas, uma bomba, uma cuia de chimarrão, uma paçoca, uma foto do Bimpo, seu cachorro de estimação e um caderno de 12 matérias.
     - Que marmota é essa, Bronson? – indagou Dalai, já engasgando de tanto rir.
     - Está tudo sob controle, já anotei o telefone da morena. Ela gostou muito de mim.
     Dalai folheou o caderno e percebeu o potencial do primo em anotações, todas muito organizadas, imediatamente um facho de luz invadiu seus neurônios:
     - Você já está empregado, Bronson, as empresas telefônicas precisam de uma pessoa com esse talento. Nunca vi ninguém anotar tantos telefones em tão pouco tempo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

NICANOR, O TERRÍVEL (Conto do livro "As aventuras de Borba", 2007)

     Algo que também acontecia muito nessa época eram as fortes dores de dente provocadas pelo excesso de balas, pirulitos, suspiros, marias-moles, paçocas, chicletes e outras guloseimas que os meninos adquiriam com os serviços prestados na fazenda. Eram fregueses assíduos do Loro, de Seu Raimundo Batista, da Dona Vá e Dona Elvira. Borba também furava as latas de leite condensado que eram vendidas no bar de sua mãe, o - “Nossa Senhora Aparecida” e tomava num gole só. Borba, Bozo, Bororo e os demais companheiros investiam suas economias nessas açucaradas delícias e o prazer tornava-se mais tarde em cáries que se alastravam pela boca. Foi exatamente nesse período que Borba passou a ter novas ideias.
     Na cidade havia um homem muito temido pelos meninos: Nicanor, um dentista gordo que carregava uma enorme mala com seus apetrechos odontológicos – um boticão e uma seringa para anestesia. O povo comentava que ele só trabalhava “melado”, se estivesse sóbrio, esquecia-se de como exercer a profissão. Quando se aproximava do paciente, que a essa altura já estava anestesiado de medo e orando sem cessar, sacava de seu alicate e pedalava a engenhoca que usava para realizar as precárias restaurações. Mas na maioria das vezes o procedimento aconselhado pelo doutor e com o aval da família era esse:
     - Arranca essa bexiga!             
     Por isso, era comum que os meninos, em plena flor da juventude, já dispunham de aparatos que na época denominava-se de “perereca”. Nicanor, “o terrível”, deixava o suor escorrer pela face larga e cair sobre o pobre paciente que muitas vezes saía com os lábios tostados pelo fogo que aquecia as ferramentas de trabalho do zeloso profissional.
     Ninguém tinha coragem suficiente de encarar o velho Nicanor, nem o bravo Bororo. Todos corriam dele, como o diabo foge da cruz de Cristo. Quando o avistavam, pediam-lhe até a benção. Por isso, quando as dores de dente começavam a incomodar, valia recorrer a tudo: simpatia, nacos de fumo para amortecer a gengiva, goles de água ardente que ficavam pressionados na boca para amortizar o sofrimento, qualquer coisa, menos ir ao Nicanor. Com o Borba não era diferente, também se valia de todos os recursos, a fim de que seu pai, o velho Suassuna, não o mandasse para a cadeira do famigerado dentista.
     Numa determinada noite, depois de haver esgotado todas as possibilidades de fugir daquele encontro fatídico, Borba criou uma técnica aprimorada: cerrou os lábios com uma força descomunal, vedando a pressão, deixando que o ar entrasse apenas pelo orifício ao lado da boca, enquanto realizava uma sucção violenta, que o jogou ao chão, desmaiando-o por alguns segundos, mas que ao acordar, sentiu a sensação de alívio. Era mais uma invenção. Uma ideia iluminada que se perdeu no tempo por não ter sido patenteada por alguma empresa famosa. Uma inventividade que nem a ciência soube explicar. Um simples garoto, um gênio, uma verdadeira máquina humana de sugar, criava uma forma de romper com as terríveis dores de dente. A partir daquele momento a vida do nosso herói mudou. Ao deitar, depois de ter realizado a sua grande descoberta, sonhou com um mundo repleto de chocolates, sendo um bravo guerreiro, que não tinha mais receios de encarar o abominável Nicanor. Agora ele estava livre. Dormiu como um anjo, dando longos suspiros, admirado com seu próprio potencial criativo. 
     No dia seguinte, sentindo-se imune, levantou bem cedo, retirando de baixo do colchão seu estojo abarrotado de moedas e correu ao boteco de Dona Elvira. Comprou todas as espécies de guloseimas que encontrou e as escondeu. Deleitava-se de prazer, como se fosse tomar o elixir dos deuses. Passou dias sem sentir nenhuma fisgada que o incomodasse, mas quando a dor voltava, celebrava seu ritual. Ao fazer a sucção, uma dor fina subia até a cabeça e o nocauteava, porém a sensação de alívio era instantânea. Com o tempo, Borba aperfeiçoou a sua técnica e já suportava o baque. Já conseguia manter-se em pé.
     Bororo e Bozo ficaram sabendo da nova invenção, mas não obtiam êxito quando tentavam realizar tal feito. O mestre criativo executava com perfeição os movimentos com a boca e os outros meninos ficavam admirados com sua técnica apurada. Enquanto os demais faziam visitas constantes ao consultório de Nicanor, Borba empanturrava-se de doces e esquivava-se dos infortúnios causados pelas cáries. Mas os dias de glória estavam contados. Não duraram muito tempo.
     Certo dia, vendendo leite nas regiões vizinhas, a ameaça de dor começou a surgir, mas Borba não se importou, continuou guiando a carroça e iniciando todo o procedimento que ele já sabia como executar com maestria, porém percebeu que todo o esforço fora em vão. Tentou uma vez, duas, três, quatro, cinco vezes, mais uma puxada forte e nada. A dor cortava seus dentes como uma navalha, cada vez mais forte. Borba arriou o cavalo e tentou a estratégia “sucçônica” pela última vez. A pressão foi tão intensa que lhe faltou o fôlego, mas de nada adiantou. Começava o desespero, imaginando-se sob o domínio do truculento Nicanor. Não conseguiu continuar o trajeto e retornou para casa. Foi até o galpão, guardou o animal e teve que apelar para os procedimentos rudimentares: arrancou uma lasca de fumo e ruminou por um bom tempo, mas nada de amenizar o sofrimento. Tomou uma talagada da água ardente “Iracema”, de fabricação própria, feita com muito esmero pelo proprietário João Lacerda Leite, mas sem resultado algum. O jeito foi contar ao pai que não hesitou em mandá-lo para o consultório de Nicanor. Borba ainda argumentou com o velho Suassuna, dizendo ter uma outra solução: seria melhor visitar o Dr. Nêgo, discípulo de Nicanor, que era mais próximo.
     Concordaram com a idéia e ele foi ao encontro do outro dentista. Nesse ínterim, mesmo com a mandíbula latejando, Borba teve outra ideia brilhante e a pôs em prática logo que chegou ao local almejado. Ao avistar o consultório, pôs-se a andar em câmera lenta, macio como uma onça e parou em frente à porta:
     - Seu Nego, seu Nego! (disse sussurrando, de forma inaudível) e voltou para casa, alegando ao pai que havia chamado inúmeras vezes o doutor, bradando em alta voz, mas ninguém respondera. Como já estava tarde, deixou a consulta para o dia seguinte.
     Borba passou a noite em claro. Ao lado da cama: querosene, um litro de “Iracema” vazio e no chão batido, um verdadeiro pretume, encharcado das salivações provocadas pelo fumo. Fez uma oração, pedindo que Deus não o deixasse morrer na cadeira de Nicanor. Dizia ser muito jovem e queria desfrutar mais da vida. De repente, um facho de luz invadiu seus neurônios, trazendo uma nova ideia, uma possibilidade de prorrogar seu encontro com o sádico dentista. Lembrou-se de João Bosco, um primo que estava concluindo seus estudos odontológicos e poderia resolver seu problema e, por ser parente, haveria menos sofrimento. Borba teve o respaldo do pai e imediatamente foi encontrar-se com ele.
     Esperou por alguns minutos na sala de recepção e logo foi chamado para ser atendido. Após explicar toda a situação, já repousado na cadeira de dentista, João Bosco pediu para que ele aguardasse um pouco até a chegada de seu auxiliar. De repente chega o ajudante. Era o Tio Bozo, que ultimamente estava tendo as suas primeiras lições. Borba ficou perplexo e atônito. Por alguns instantes preferiu estar diante de Nicanor. Enquanto os dois averiguavam a boca do nosso herói, ele esbugalhava o olho, preocupado. João Bosco deu as primeiras orientações ao ajudante e saiu, deixando-os sozinhos. Como Bozo não tinha a prática necessária para extrair o molar, nem os trejeitos da profissão, arrancou o que estava latejando e de sobra, um outro que estava sadio, mas apenas uma parte dele, quebrando-o pela metade, causando-lhe uma dor insuportável. Borba deu um pinote na cadeira, como se estivesse empinando uma carroça e levantou com as mãos sustentando o queixo. Voltou para casa, às carreiras.
     No outro dia, o dente já não doía, havia sido extraído, mas ficou por um bom tempo com a “banda” do outro. Daquele dia em diante, não era apenas Nicanor quem lhe causava assombro, mas também o Tio Bozo.  
     Borba passou a torcer para que ele fosse realmente jogador de futebol.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

GERANDO EMPREGO - primeira parte (Conto do Livro "As presepadas de Dalai", 2008)


     Depois da difícil vida de empregado, Dalai passou a investir no ramo de pneus, tornando-se proprietário da loja “Roni Pneus”, mas isso não o impedia de se aventurar em outros negócios, sempre com aquele espírito solidário, buscando ajudar os outros, gerando oportunidades de emprego.
     O primeiro a ser favorecido foi seu primo Vandeco, que morava em Dourados, mas devido à escassez de trabalho, tornou-se guarda de carro. Na verdade ele tinha sido contratado para trabalhar na loja, mas seu talento natural era outro e não passou despercebido pelo olhar clínico de Dalai.
     Na loja, Vandeco, Preto e Nenê revezavam o serviço: cambagem, caster, alinhamento, balanceamento, troca de óleo, enquanto isso Dalai ficava apenas observando os funcionários, mas quando chegavam as garotas, aí ele fazia questão de atendê-las. O tratamento era diferenciado, servia-lhes café, bolo, chocolate, capuccino, água gelada, suco natural, água de coco, sujava-se de graxa, empenhava-se para deixá-las bem à vontade e facilitar o primeiro contato.
    Aos finais de semana, Dalai convidava Vandeco para conhecer alguns lugares: bares, boates, restaurantes, clubes, sempre ambientes recheados de muitas mulheres, já que essa sempre foi a sua principal clientela. Dalai possuía um imã que atraía todas as classes e cores (tailandesas, indianas, polonesas, coreanas, italianas, ruivas, loiras, negras, mulatas, japonesas, alemãs, russas, etc...), mas o primo não acompanhava seu ritmo, as madrugadas eram longas demais para ele.
     - Acorda, Vandeco! – o sono era interrompido com as batidas de Dalai no vidro do carro.
     - Ehea! Ehea! - era o som da risada de Vandeco, muito parecida com a do Pateta, personagem de desenho.
     Dalai sentiu aquele visgo de ideia chegar-lhe à mente, trazendo à tona a principal função que poderia ser desempenhada pelo primo e soltou uma de suas pilhérias:
     - Já sei, Vandeco, você será guarda e meu motorista particular, mas não pode babar em serviço – exclamou, limpando aquela gosma impregnada no banco.
     - Ehea! Ehea!
     - Acelera, Pateta, vamos pra casa, você já trabalhou demais por hoje! – mencionava Dalai, tomando a saideira.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

ENFEZANDO O BORORO (Conto do livro "As aventuras de Borba", 2007)

Tudo começou há muitos anos atrás, quando o protagonista desta história ainda nem sonhava em ser consagrado como o grande “Borba”, mas desde cedo já demonstrava sua maestria em termos de inventividade.
Antes de mencionar seus inúmeros momentos criativos, quero transportar-lhe à pacata cidade de Pedro Gomes, Matogrosso do Sul, terra natal do nosso herói, onde se dá o início de toda sua trajetória. Ele morava na zona rural, na fazenda “Picada”, juntamente com os pais e seus três irmãos. A maior parte do tempo mantinha-se ocupado na roça, algo que o impedia de estudar com mais afinco. Também vendia leite para ajudar na renda familiar. Os momentos de lazer eram improvisados na própria lida cotidiana.
A primeira manifestação de criatividade do nosso protagonista foi uma descoberta gloriosa: seu irmão mais novo, o Bororo, quando desafiado a demonstrar sua força e masculinidade viril, fazia todo o serviço do campo, enquanto Borba e seu tio Bozo, desfrutavam da regalia de descanso. Bororo empenhava-se ao máximo a fim de demonstrar que era capaz de realizar todo o serviço sozinho. Bozo, que já vinha pensando numa forma de se livrar desse sofrimento, foi o que mais desfrutou da nova tática. Os desafios tornaram-se frequentes e a dupla mantinha em segredo a artimanha para que o pai de Borba não desconfiasse de nada. Bororo trabalhava como uma máquina incansável, enquanto isso Borba fazia seus planos para o futuro, inclusive pensando numa forma de conquistar a jovem Zana. Já o Bozo, deitava à sombra da mangueira altiva, sonhando em ser parceiro de Zico no futebol. Suas ilusões o levavam até o estádio do Maracanã e só voltava à realidade quando Bororo surgia, zombando da ineficácia dos outros trabalhadores:
- Pronto, cambada, eu não disse que era macho! Borba e Bozo confirmavam que sim e o elogiavam muito, mas quando ele se ausentava, soltavam altas galhofadas, faziam a maior balbúrdia. Bororo estava extremamente exausto, mas não demonstrava, mantinha sua opinião a todo custo. Tinha um gênero forte, era determinado. Com o passar dos tempos, as provocações ao Bororo ficavam mais intensas. Mal chegavam ao roçado e Bozo já incitava:
- Eu duvido que o Bororo agüente carpir tudo sozinho! Pronto, era a gota d’água, ele enfezava, tomava a enxada das mãos de cada um deles e dizia:
- Povo mole, vou mostrar como é que se faz! Borba saía de mansinho, pressionando os lábios para não rir na frente do irmão.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

ACORDA, DALAI! (Conto do livro "As presepadas de Dalai", 2008)

     Eis aqui um conto do meu livro "As presepadas de Dalai", lançado em 2008.

     Sempre em busca de uma independência financeira, muito antes de obter seu próprio negócio, Dalai investiu em vários ramos de trabalho, foi bancário, vendedor, balconista de farmácia, leiteiro, padeiro e plantonista numa loja de conveniências, mas infelizmente surgiram alguns percalços, pois seu perfil não se adequava às certas exigências. Acordar cedo, por exemplo.
    As evidências neurofisiológicas sempre indicaram que o sono para ele não se trata apenas de repouso cerebral, mas uma leseira crônica profunda, tornando-se cada vez menos reativo aos estímulos sensoriais. Sua vida boêmia sempre contribuiu para o avanço do estágio denominado “Sono de pedra”, por esse motivo, juntando as noites mal dormidas ao distúrbio congênito que lhe acompanhava, ficava difícil desempenhar certas funções.
    Seu primeiro emprego foi de estagiário na fazenda “Pirituba”, em Terenos, próximo à Campo Grande. As instruções foram apresentadas:
    - Logo bem cedo vocês apartam as vacas, retiram o leite e podem despejá-lo nos tambores, depois é só colocá-los no caminhão e entregar aos nossos clientes já cadastrados – orientou o capataz.
    Dalai, com os olhos em brasa, cambaleando de sono, apenas pendia o pescoço para o lado e, com o olhar enviesado, recebia as coordenadas.
    Os bezerros o adoravam, faziam a maior festa quando ele se aproximava do curral, por volta das 11:30. Durante sua primeira semana de trabalho, outra vantagem foi a enorme produção de coalhada, com o sol a pino, o leite azedava e a única saída era esse investimento. Não durou muito para que a primeira experiência fosse um verdadeiro fracasso. Depois de sua saída, ouviram-se muitos rumores por aquelas bandas de que os bezerros morriam de saudade, berravam desconsolados, como se tivessem perdido suas mães. Dalai foi importante na vida deles.
    Como padeiro, a história não foi diferente, a vizinhança do bairro Jockey Clube ficou mais de duas semanas sem saber o que era café da manhã. As roscas e pães só saíam depois do meio-dia.
    - Isso é serviço de corno! – resmungava, com a mão na massa.
    Também não demorou muito para que ele mudasse de ramo, desta vez como plantonista em uma loja de conveniências. Seu turno começava à meia-noite e encerrava-se às seis horas. Do lado de fora uma campainha e um aviso: “Plantão 24 horas, basta dar um toque”.
    Pronto, o caos estava instalado, algumas pessoas saiam dali e passavam na farmácia, a fim de comprarem gelol e passarem nos braços, de tanto tocarem a bendita campainha; uns chutavam a porta de ferro; outros buzinavam, gritavam no megafone e muitas outras atitudes tresloucadas que acabavam acordando toda a vizinhança, menos o funcionário da conveniência.
    Certa vez, um dos clientes comunicou a polícia, preocupado em ter alguém morto no interior da loja. Enquanto o helicóptero sobrevoava o local, surgiu a cabeça de Dalai na janelinha, soltando uma pilhéria:
     - Pra que esse furdunço, é só tocar a campainha, moçada!
    Mas foi na farmácia de seu pai, José Lacerda, que aconteceu uma presepada clássica:
     - Juda, a Vanda e eu iremos a Dourados, quero que você ajude o Dalai a abrir a farmácia. Sei que você é esperto e não vai deixá-lo perder o horário.
     - Pode deixar, padrinho, eu sou um raio pra acordar cedo!
    O sol já estava rachando, o cheiro da comida começou a se esparramar pela casa, acordando-os. Já era quase meio-dia, quando Dalai e Juda resolveram cumprir a tarefa. Na cozinha, Paulina apoderava-se de um pé de cabra para tentar arrombar a porta do quarto onde eles estavam.
    O emprego de bancário já foi mais sossegado, pelo menos não precisava acordar cedo, por outro lado, os tormentos aos finais de semana eram inevitáveis. Paulina, a empregada da casa, tinha o hábito de conversar sozinha e não compreendia a diferença entre bancário e padeiro, por isso incomodava o pobre Dalai.
     - Acorda, Dalai!. Acorda, Dalai!
     - Hoje é domingo, Paulina, não tenho trabalho – respondia com uma voz pastosa.
     Não demorou meia hora para que ela voltasse a chamá-lo:
     Dalai, já está na hora!
     - Pelo amor de Deus, Paulina, hoje é domingo, criatura!
     Paulina insistiu novamente, mas dessa vez foi surpreendida por um ataque de fúria. Dalai arremessou um chinelo daqueles bem pesados em direção à vítima e só não lhe acertou em cheio porque a porta fechou-se abruptamente.
     Dalai sofreu muito até chegar a ser dono do seu próprio negócio. Conforme mencionou o grande filósofo Borba, em um de seus momentos de meditação vividos “na sédea de seu Olivívio”: “Isso que é judiar o pobre do cristão!”.