segunda-feira, 21 de novembro de 2011

RAÍZES DE SANGUE

     Ao som nostálgico de “song pepper”, do guitarrista Mike Stern, enquanto vislumbrava as fotos que registraram boa parte da família concentrada na festa de 60 anos de casamento da tia Ana e do tio Raimundo, no interior do Matogrosso do Sul, a saudade resolveu prender-me em suas asas e transportar para o seio das abençoadas raízes de sangue.
     Não foi possível ver o meu rosto entre os demais, uma vez que não pude estar presente no evento. Mas quem disse que algum dia estive distante? Estamos todos conectados por um elo inexplicável. Meus pés ainda tocam a poeira do chão da pacata cidade de Pedro Gomes e a chuva de Campo Grande ainda encharca minha camisa coarada agora pelo sol de Rondônia; o corpo ainda sente os afagos da minha mãe, do filho, dos avós, tios e primos; minha voz se mistura aos sotaques nordestinos que pairam em todas as festividades; os cabelos brancos se fundem com as profundas entradas que anunciam a chegada da precoce calvície, o sangue se agita quando a música de Luiz Gonzaga ecoa pelo salão. Tudo isso alimenta minha saudade, mas sempre a encarei como um sentimento benéfico. Trata-se de uma dor necessária, uma hemorragia que não quero estancar, pois quanto mais sangra, mais alimenta minha alma sedenta desse amor familiar.
     Nesse paradoxo, entre dor e prazer, não deixo o pensamento esvaziar minhas lembranças, pelo contrário, faço questão de mantê-las vivas e latentes dentro do peito, grato a Deus por esse ardor sem medida.