quarta-feira, 29 de agosto de 2012

MORFOLOGIA NORDESTINA

     Na hora do almoço, entre garfadas na merluza, sapecou à queima roupa os termos da morfologia:
     - Tíbia e fíbula são ossos da parte inferior da perna. Frontal, pariental, temporal e occipital formam a cabeça. O Etmoide é frágil em suas protuberâncias, é o osso do nariz.
     - Sabia que há 24 ossos na costela e que a coluna é formada por 33? Continuou minha esposa, empolgada com o curso de Farmácia.
     - O ilíaco une três ossos: ílio, ísquio e pube. Eles formam a bacia. Cinco formam o cóccix. A face superior se articula com a inferior da L5 na coluna vertebral.
     - Vixi! só conhecia a L 200 (pensei baixinho).
     Revirei o peixe na boca.
     A aula continuou:
     - A vértebra cervical atlas é a primeira da coluna, ela sustenta o pescoço e proporciona o movimento de rotação, além de ser a única que se articula com o occipital do crânio.
     - Na cóclea há um líquido que vibra, aí a mensagem reverbera no encéfalo, traduzindo o efeito sonoro. Legal demais, né? Encerrou, ofegante.
     Não entendi nada (respondi na mente).
     Por alguns instantes saí de cena, vislumbrei minha avó de baixo do pé de manga, na cadeira de balanço, lecionando de verdade, empoemando de forma nordestina:
     - Meu fi, ontem na feira um cabra deu uma topada, fez um tai na canela do pobre. Recebeu uma queda feia, rumou o quengo no asfalto que esfolou o pau da venta. De repente, deu aquela dor fina no vazio, abaixo da mindinha, bem aqui ó, perto da suã. Explicava, bolinando em meus quadris.
     - Pois é, dismintiu os quartos. Até a sambiquira tá latejando e além de tudo é moco. Isso que é judiar do cristão!
     A consciência voltou à mesa.
     Respondi, sorrindo:
     - Agora entendi tudo.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

NO ENCALÇO

Que diacho é esse tal de cunho vernáculo?
Rebolou o dicionário no mato
Aprumou o passo:
Bandeira, zumba, pirituba
Cróis, chulipa, rabo de couro
Inventividades só minhas
Troco por outro nem com açúcar.
Suas toscas palavras empoemam
Nunca precisou de diploma
Para encontrá-las soltas na boca.
A poesia esteve sempre ali
Rude, intacta, pronta
Besta quem a procura
Em outro canto.
Nesse chão adormecido
Não há literato
Padre, juiz ou político renomado
Que encubram seu rastro.
Agostinho é poeta nato
Só não atina que nesse atalho
Sigo seu compasso
Admirado.

MOAGE

Palavra que adoça a boca
Destila meu sorriso
Torpor de espírito
Tatuagem que ninguém vê
Marcada por dentro
Encharcada no prazer
No rebojo da saudade.

Enrolada nos beijus
Mergulhada na moqueca
Ensopada no guisado
Na farinha ou no jabá
No remelexo do baião
De dois em dois
Sempre enche meu papo.

Empotocada, empilheirada
Debruçada no pé de manga
Ancorada no leito do rio
Empoeirada nas alpercatas
Esbanjando sua elegância
Vejo sua cara avermelhada
Cheia de graça.

Despi o Aurélio todo
E nada de encontrar
Algo mais precioso que seu nome
Presença bendita
Herança divina
Sopro de vida que acaricia a alma
Moage abençoada!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

ENCARVALHADO


Sou riso frouxo na noite infinda
enlaçado no descompasso
com o eito
na vida em prumo.
O ócio me bolina todo
encena minhas verdades
revela o contentamento
de andar pelo vento, solto
sem rumo.

Escanchado na garupa, apenas
poemas empoeirados
acordes robustos
de jazz.
Álbum de retratos
repleto de pilhérias
sonhos que ainda trago
hermeticamente enclausurados
preso aos meus pés.

O resto é todo enfado
rotina acortinada de mofo
roupa tosca
embolorada.
Coarando no balaústre caiado
troncho no chão mole
onde não ouso repousar
meu pranto
minha toada.
Não me encontram em qualquer canto
não me encaram em qualquer beco
difícil desvendar meu rastro
obtuso e esguio.
Sigo envelhecido
poitado na chuva, apurando
de costas para a mediocridade do mundo
encarvalhado em meu tonel
que boia manso na curva de um rio.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

EXPEDIÇÃO EMBARCADA

        Lá pelas bandas do rio verde, interior do Mato Grosso do Sul, na cidade de Água Clara, navegando sentido Três Lagoas, alguns dos membros da União Grelista de Pescadores (UGP) retomaram suas atividades expedicionárias, porém com grande estilo, agora ocupando as embarcações que os levariam ao recanto dos dourados e das imensas piracanjubas.
        Dalai (Ronilton, Vice Presidente e Diretor de quedas), Borba (Floriano Neto, Presidente vitalício) e Rudia Monstra (Beto Lacerda, Diretor de potocas e pilhérias), embora desfalcados pela ausência de Bareta (Edson, Chefe das panelas e do café Beliniano), agora estavam acompanhados de dois novos amigos: Gorduroso, um espécime de tucano mesclado com cururu e Ruliço, um peixe-boi terrestre, mas antes de revelar os detalhes desta inesquecível aventura é necessário descrever como tudo começou:
      Rudia e Borba encontravam-se em Campo Grande, eles haviam sido convidados pelo ilustre anfitrião Dalai para realizarem um novo tipo de expedição, visto que em ocasiões anteriores jamais tinham realizado tal feito. Na verdade, no momento do convite já havia dado início à pescaria, nesse ínterim já era possível ver a euforia presente em suas faces rubras, antes de juntarem os apetrechos e amaciarem a pista. Além das tralhas, compraram quatro dúzias de tuviras médias e um saco de minhocas cuiabanas. O dono do estabelecimento até lhes ofereceu uma tal de minhoca mineira, mas os setenta reais pela dúzia afujentaram os pobres cristãos e nesse momento Borba esbravejou:
        - Dá pra comprar duas picanhas, uma lima nova pro meu facão e sobram uns pilas. Ainda prefiro o barranco!
         A madrugada ainda era espessa quando o renomado Presidente, de longe, avistou Rudia de cócoras, no meio do asfalto, munido de seus pertences, estalando os dedos de alegria. Era o momento de encararem mais uma vez a estrada. Dalai já se encontrava no local combinado, juntamente com o restante dos parceiros. Os barcos e motores já estavam amarrados e as três gigantescas caixas térmicas, forradas de cerveja até o talo. Antes de partirem, ele as acariciou como um pai que envolve seus filhotes, beijou as tampas com carinho e rumaram mata adentro. O local era de difícil acesso, afastado do burburinho da cidade. O barraco era assombrado, infestado de morcegos, ausente de água e energia elétrica, mas isso não importava aos tripulantes, a escassez era compensada pela beleza da paisagem e pelo rio paradisíaco. Depois de embarcados, a visão era estonteante. As bordas do rio verde eram entrecortadas de galhos secos, um verdadeiro convite aos piaus. O que se podia ver à frente, além das águas cristalinas, eram inúmeros cavalinhos (tática tradicional de pesca, cujas linhas e anzóis ficam amarrados em garrafas plásticas). O silêncio só era interrompido pelo motor, quando em movimento, pelas frouxas risadas e pelos cliques do abrir de latas.
    Depois de capturarem alguns exemplares, Borba resolveu organizar os aposentos, estendendo os colchonetes em baixo de uma pia aposentada, dispondo-os sobre o chão empoeirado daquela noite fria. Ruliço, com medo de alma penada, resolveu dormir na camionete, enquanto os demais badalaram a noite toda, atormentando o sono do exausto presidente. Gorduroso possuía duas bolsas debaixo dos olhos, elas pareciam coxinhas de frango e quanto mais ele bebia, maiores ficavam. De vez em quando um morcego sem GPS dava vazantes próximos à orelha de Dalai. O riso tomava conta do cenário, era uma algazarra estrondosa. Não teve jeito, Borba passou a noite em claro.
        No outro dia realizaram as últimas tentativas de pesca, organizaram todo o material e voltaram à cidade. Quem os visse retornando para casa, esfuziantes de felicidade, teria a impressão de encontrarem pescadores profissionais abarrotados de peixes, mas essa não era a realidade, nem tão pouco o objetivo principal. O que realmente importava era a companhia um do outro. Registrar esse momento na memória e trancafiá-lo com carinho foi o alvo da vitória.
       Rudia já começava a sentir a dor penetrante da saudade, teria de encarar a distante Rondônia e despedir dos primos queridos, mas levava consigo a certeza de que valeu à pena cada momento vivenciado.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

FURDUNÇO NA TERRA E NO CÉU

          Prosadores, poetas, músicos, cantores, compositores, mestres na improvisação, possuidores de um senso de humor afiado, além de pilheristas natos, eis algumas das características marcantes das minhas raízes sanguíneas. Trata-se de uma herança nordestina arraigada em nosso gene.
          Eis uma prova disso: enquanto Pedro Gomes fervia na 9ª festa da Família Lacerda, entre os dias 21 e 22 de julho de 2012, segundo meu dileto primo, Manoel Lacerda Lima, outros entes queridos também comemoravam no mundo espiritual. Delicie-se com o belo poema:

Festa da família Lacerda no céu

Meus sempre amados parentes,
consanguíneos e afins!
de perto ou lá dos confins,
no prumo ou andando ao léu:
o que aqui chamo de céu
é o mundo espiritual!
morada do imortal,
que todos somos na Vida,
onde parte da querida
Família é mais que vivente!

No mesmo dia de Julho,
no sábado, vinte e um,
algo fora do comum
aconteceu, lhes garanto:
Quase como por encanto,
e na mesma vibração,
lá na outra dimensão,
grande festa aconteceu,
aqui e lá estremeceu
da alegria o barulho!
Toda a emoção de cá,
na festa de Pedro Gomes,
onde estavam tantos nomes
dessa Família querida,
fez uma onda incontida
de amor e fraternidade
alcançar a irmandade,
lá no mundo essencial,
numa festa sem igual...
Digo quem estava lá!
Antes, descrevo o lugar,
onde tudo acontecia:
Qual ilha da fantasia,
onde luzes coloridas
iluminavam floridas
alamedas perfumosas,
todas orladas de rosas,
lírios, tulipas, verbenas
e tantas outras, nas cenas
daquela festa sem par!
Como sempre, em liderança,
vi Pedro Lacerda Leite,
e ao seu lado, em deleite,
Maria da Conceição,
sua esposa. – Eles são
nossos avós ancestrais,
tronco de onde os demais,
de alguma forma vieram,
por isso todos se esmeram
em guardá-los na lembrança!
Um ser de luz e carmim
atraiu minha atenção:
com seu olhar de oração,
era minha mãe, Leonor,
de braços com seu amor,
meu pai, Antônio Pereira,
e forte emoção ligeira
invadiu meu coração:
com eles vi meus irmãos,
saudoso Antônio e Joaquim!
Inês e Leon-Denis,
minha cunhada e sobrinho,
esposa e filho do ninho
que fez meu irmão Antônio,
viram esse pai risonho,
nesse encontro fraternal.
Iluminado portal
abriu-se à minha frente,
e dele eu vi tanta gente
sair, alegre e feliz!
Vi os demais componentes,
Lacerda e das demais clãs,
e todos em seus afãs
de ter o amor por premissa.
Vi João Lacerda e Felícia
abraçando Cleusa, a nora.
Felícia um sorriso aflora,
vendo Dalva, a sua neta,
chegar cantando na festa
e dar-lhe um beijo, contente!
Vi, esbanjando alegria,
Tia Josefa abraçar
Raimundo Osório e dançar,
chamando a filha Toínha,
que logo se avizinha,
trazendo Antônia Abdias,
ao som das melodias
que vibram felicidade,
fazendo aquela irmandade
sentir a luz que irradia!
Dedilhando um violão,
vi Tio Antônio a cantar,
vi Tio Cícero dar,
a bênção pra quem dançava!
Vi Tio Joaquim que beijava,
alegre, Antônio seu filho.
Da paz eu vi todo o brilho,
em Tia Antônia e Zé Né,
que ali professavam a fé
no amor que faz união!
Naquele doce ambiente,
de emoção sempre viva,
Tio José e Tia Diva,
a sorrir, deram-se as mãos,
sentindo a paz do perdão,
e o sabor da harmonia,
em que a sabedoria
é sempre melhor que a astúcia,
vi Lúcio e Maria Lúcia
beijá-los fraternalmente!
- “O amor é uma luz que emana
de um Sol que nunca se acaba” -
explica pra Luiz Barba
sua filha Carmelita,
enquanto Luíza fita
Joaquim que chega radiante.
Surgem, ali, nesse instante,
tia Rosa e tio Celeste,
e tudo em volta se veste
da energia que irmana!
Uma estrela cintilante
de cores o céu salpica,
enquanto Tia Francisca
Manoel Bezerra afaga,
e o céu de luz se alaga
pra Vicente e Felisbela
e pra toda a prole dela:
Joaquim, Robson, Chiquinha,
Edivan e a priminha
Rosimeire, meiga infante!
Papai e mamãe revejo,
em mais um grupo animado:
com eles, os meus cunhados,
Artur e Bartolomeu,
Zé Adelino e Montel,
tão livres de suas dores,
e admirando as flores
naquele jardim do Além,
onde Deus tudo provém
e a Luz é mais que um lampejo!
Nesse grupo de meus pais,
dois netos seus são dois anjos:
suas roupas são dois arranjos
de Luzes e diamantes,
e de cores vicejantes...
um José Paiva, outro a Nédia,
que aquém da infância média,
bom Deus com Ele levou,
com eles para o céu voou
e os dois não voltam mais!
O som baixou de repente,
todos ficaram de pé,
os anjos Nédia e José,
trazendo um primo amparado,
Alexandre, ali chegado,
ouvindo vozes saudar:
- “Bem-vindo de volta ao lar!”. 
Quando o coro se esvaiu,
um toque sobressaiu
de uma sanfona cadente!
Termina aqui minha visão,
minha querida família!
Permaneço na vigília
de vibrar, pra sempre, amor!
Neste poético labor,
que fez na forma ligeira,
desse Nelzinho Pereira
uma surpresa lhes resta:
Quem animava essa festa?...
Luiz, o Rei do Baião!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

ESPETÁCULO ANTOLÓGICO

     Todas as festas possuem características semelhantes: confraternização, sorriso frouxo, afeto, muita comida, bebida à vontade, mas quando os participantes são nordestinos e correm em suas veias o sangue “Lacerda” aí a comemoração envereda-se por outro rumo. Para o entendimento completo da situação é necessário estar no meio dessa gente, mas nesse artigo tentarei descrever de forma minuciosa alguns momentos marcantes, na intenção de não deixar escapar a realidade vivenciada.
     No dia 21 de julho de 2012, logo pela manhã, os participantes que chegavam ao Tênis Clube de Pedro Gomes já manifestavam os primeiros lampejos de alegria. Os abraços e beijos eram distribuídos sem modéstia. São Paulo, Goiânia, Campo Grande, Cuiabá, Rondônia, Sonora, Coxim, Pedro Gomes e até os Estados Unidos formavam um nordeste a parte. A algazarra e o furdunço eram tantos que os transeuntes próximos ao local juravam estar presenciando uma briga.
     À noite, pelo lado de fora do salão da Maçonaria, a fogueira de São Pedro também deu o ar de sua graça e os fogos riscaram o céu, sacramentando esse momento. Lá dentro, Selma Lacerda e os demais anfitriões (Célio e João Bosco) davam as boas vindas aos ilustres convidados, além de um breve relato sobre a trajetória de Pedro Lacerda (nossa ancestral raiz), juntamente com sua prole para arraigarem-se com suas alpercatas em solo Sul-Mato-Grossense. Enquanto isso, embaixo das mesas, os pés dos familiares pinicavam na vontade de arrastarem as chinelas. O sanfoneiro e seus comparsas deram início ao evento musical, executando polcas, guarânias, chamamés, rasqueados, vanerões, mas o grande momento artístico ainda estava por vir. De repente, o som cessou por uns instantes e Hélio Lacerda atracou-se ao violão, debulhando xotes, baiões e forrós de Luiz Gonzaga. Foi como jogar fogo em um tambor de gasolina. Enquanto isso, Célio distribuía as réplicas de chapéus de couro que mal abarcavam as cabeças nordestinas. O salão fumegava, o chão virou um braseiro só, os quadris sacolejavam freneticamente e as horas pareciam se esquecer de avançar. A felicidade tomou conta do ambiente e fez o tempo parar. A euforia vazava pelas frestas das janelas e aqueciam a noite fria da pacata cidade. Permaneci na entrada principal, por alguns instantes e vislumbrei minha mãe rodopiando pelo salão. Há tempos não a via tão feliz assim. Emocionei-me.
     No último dia (domingo) não foi diferente, a fartura não era só de churrasco e cerveja, mas de vidas repletas de amor. As pilhérias eram soltas como pipas e elevavam ainda mais o nosso rico senso de humor. Tudo era unânime, como uma família dentro de uma única casa. De quebra, numa demonstração magistral de humildade e simplicidade, Tio Luís encerrou o evento com seu discurso, fazendo com que os canudos acadêmicos de quem os possuísse ou qualquer outro estudo aprofundado ficassem engavetados, pois suas palavras soaram como uma lição de vida. Nesse momento era como se ele mudasse os versos de Humberto Teixeira: "Januários, respeitem seu Luís". 
     Quem disse que a farra acabou? Ainda ouço o marulho das ondas sonoras reverberarem dentro do peito. Fecho os olhos e vislumbro esse marco histórico. A festa ainda ecoa. Todo Lacerda sabe ouvir.