terça-feira, 11 de setembro de 2012

INSATISFAÇÃO

     Ao longo de quase vinte semanas, o Programa Raul Gil, através do SBT, realizou uma parceria com a Bombril e a Sony Music, promovendo o projeto musical “Mulheres que brilham”, deixando meu sábado com sabores de curiosidade e desconfiança.
     Algumas intérpretes ousaram levar ao palco canções de artistas renomados da Música Popular Brasileira, tais como Chico Buarque, Tom Jobim, Edu Lobo, Djavan, Baden Powell, Pixinguinha, Ary Barroso, dentre outros do mesmo nível artístico, mas aos poucos foram sendo eliminadas pelos ilustres jurados: José Messias (crítico musical e escritor), Fran Fortunato (gerente de marketing nacional da Sony), Marcos Maynard (diretor musical), Luís Carlos Maluly (produtor musical) e Dhi Ribeiro (cantora), tendo como parâmetros os critérios de afinação, técnica vocal, domínio de palco e carisma, só não revelaram ao público que o mais importante seria saber sentir o cheiro da carniça a quilômetros de distância para alimentar as futilidades mercadológicas. Disso eu já sabia, mas resolvi vestir a capa de visionário e pagar o preço pela bizarrice. Dito e feito, as candidatas que investiram na sofisticação musical foram ficando na estrada, encobertas pela poeira da mediocridade.
       Na etapa final, dentre as seis cantoras, entre os escombros, duas sobreviventes soltaram a voz e à queima roupa afagaram meu coração sedento, fazendo ecoar as geniais canções “A história de Lily Braun” (Edu e Chico) e “Olhos nos olhos”, de Chico Buarque. Os vestígios sonoros da boa música ainda teimavam em querer mudar o inevitável, mas o final trágico foi anunciado, mostrando a cara pálida do povo brasileiro, revelando a vitória da dupla, Bruna e Keyla, que interpretaram uma canção insossa dos sertanejos, Chrystian e Ralf. A plateia, alvoroçada, aplaudiu a decisão. Diante dessa moléstia proliferante mais que salmonela em maionese estragada, lembrei-me da citação do multi-instrumentista, Hermeto Pascoal: “Na música, o que dá dinheiro é sempre a burrice. O câncer da alma chama-se dinheiro”. Voltei a pisar no solo da desilusão.
      Sou um homem surrado pela indignação, inconformado com os padrões culturais vigentes, mas já acostumei a encarar a solidão e viver em minha concha, ouvindo os acordes dissonantes do jazz, mesclados ao choro e à bossa. Nesse universo, não há quem o suje, ele permanece sempre intacto, repleto de pérolas que adornam meu descanso.