sexta-feira, 30 de novembro de 2012

PAPO CABEÇA

     Ontem resolvi organizar meu acervo musical. Do lado esquerdo, um armário recheado de obras jazzísticas, todos trancafiados, catalogados e subdivididos por instrumentos.
     Entre os trompetistas: Dizzy Gillespie, Chet Baker, Miles Davis, Wynton Marsalis, Arturo Sandoval, Claudio Roditi, Lee Morgan e muitos outros; no compartimento dos saxofonistas, destacam-se, Charlie Parker, John Coltrane, Michael Brecker, Victor Assis Brasil, Paquito D’rivera, Joe Lovano, Sonny Rollins e uma outra leva de grandes músicos; dentre os guitarristas, Django Reinhardt, Wes Montgomery, Joe Pass, Barney Kessel, Kenny Burrell, Pat Martino, Pat Metheny, Mike Stern, Toninho Horta, Ricardo Silveira, Hélio Delmiro, Lee Ritenour e tantos mais que arrombavam minhas retinas; na área dos baixistas, dando o ar de sua graça, Charles Mingus, Jaco Pastorius, Richard Bona, Gary Willis, Stanley Clarke, Ney Conceição, Arthur Maia etc; empunhando as baquetas, Buddy Rich, Max Roach, Art Blakey, Dennis Chambers, Dave Weckl, Peter Erskine, Vinnie Colaiuta e vários outros que desempenham um papel importante na área rítmica da música instrumental; no campo dos violões, Paco de Lucia, Raphael Rabello, Charlie Byrd e outros mestres abrilhantam os compartimentos; no piano, muitos títulos aperfeiçoam ainda mais a degustação sonora, dentre eles, Oscar Peterson, Herbie Hancock, Chick Corea, McCoy Tyner, Michel Camilo, Michel Petrucciani e a lista se estende entre violinistas, clarinetistas, percussionistas, flautistas, bandolinistas e muitos outros.   
     Do lado direito, a Música Popular Brasileira também marca presença, arejando todo o ambiente: Tom Jobim, Chico Buarque, Edu Lobo, João Gilberto, Carlos Lyra, Francis Hime, João Donato, Ivan Lins, João Bosco, Djavan, Joyce, Fátima Guedes, Rosa Passos, Leny Andrade e mais uma série de renomados artistas que só não serão mencionados para não esticarem ainda mais este artigo.
     Enquanto a arrumação continuava, lembrei-me do papo filosófico entre dois indivíduos que trocaram suas ideologias no meu escritório de advocacia: 
     - Acho que ele vai ser mandado embora da fazenda – disse um deles.
     - Já vai tarde – respondeu o outro.
     Esse empregado deve ter feito alguma coisa errada para deixar o patrão enfezado desse jeito – pensei. 
     - Quem será que vai ganhar a fazenda de verão? – perguntou o de barbicha.
     - Tomara que seja...
     Antes que o outro sapecasse o nome da fulana de tal, percebi que estavam falando do medíocre reality. Mas a aula continuou, agora no campo das artes:
     - Agora o Tchan vai pra frente!
     - É verdade, o compadre Washington voltou.
    O pensamento me trouxe de volta à cena onde se encontravam os CD’s. Balancei a cabeça, indignado e agradecido. O mundo da sofisticação musical está todo na minha casa, basta esticar a mão e pegá-lo. 
     Comovido, agradeci a Deus por estar ali, protegido entre as paredes do meu quarto.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

DOCE MADRUGADA

    Enquanto a cidade, adormecida há muito tempo, arrastava seu sono morrinhento, meu espírito inquieto buscava a companhia dos acordes dissonantes para fazer uma viagem, sem sair da cama, rompendo madrugada adentro. 
     Por algumas horas vislumbrei o Rio de Janeiro, nas canções de Tom, Chico e Ivan; fervi sem sombrinha no frevo de Edu; os pés, salpicados de suor, roçaram a apoteose do samba, ao som de Leny, Djavan e Paulinho; os quadris cediam ao remelexo dos baiões e xotes que saiam da sanfona de Sivuca; o violão de Dori, soava manso, mesclado à voz de Nana; Joyce e Donato temperavam com salsa e bossa; as notas tronchas do jazz esticavam ainda mais a vontade de permanecer ali, refugiado nos aposentos da música.
    Sou notívago por natureza. Desde a mais tenra idade já flertava com a noite. Era exatamente nesse horário que meu corpo, tomado por uma energia produtiva, lecionava, lia, escrevia, assistia aos inúmeros filmes, biritava, petiscava e percorria os bares da cidade morena que desencadeavam uma série de canções da boa safra brasileira. Tudo isso me causava um extremo fascínio. A mente insiste em contradizer a rota normal da maioria dos viventes e ressalta que o dia foi feito para dormir e descansar.
    Agora, em solo rondoniense, o deleite pelas madrugadas tornou-se uma necessidade. É tempo de reestruturação, depuração. Momento de calar a boca do sol com a cortina acetinada da lua e fugir do calor escaldante, afugentando-me no ar condicionado; de lançar ao vento os processos, boletos e protocolos, de abandonar a mediocridade sonora que me azucrina nas ruas; de buscar, na pausa do silêncio, o compasso certo para encarar a dureza da rotina; de enclausuramento no hermético mundo distante em que vivo, onde a arte está emoldurada nas paredes do meu coração, o qual não ouso compartilhar com ninguém.
     Desligo o meu Sony e o sono me convida para dançar a canção derradeira. Estou pronto para o desconcerto do dia seguinte.