sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

DEDO DE DEUS



     É necessário estar preparado para encarar a guerra sonora que se alastra por todo território nacional, por isso, para conter os ataques fulminantes e avassaladores que são arremessados a esmo, sempre carrego armamentos suficientes (cds, pendrives e MP’s), blindando minha audição com o jazz, a bossa e o choro, mas nessa última tarde fui saqueado pelo esquecimento e por uma chuva torrencial que caía sem piedade, enquanto aguardava minha esposa voltar da loja de sapatos.  
    Estava atônito, fragilizado, despido no truculento campo de batalha, apenas com a companhia de um rádio famigerado. Tenho um medo terrível desse meio de comunicação. Das experiências vivenciadas, apenas duas exceções auditivas me encorajaram a ouvi-lo: nas madrugadas de Campo Grande, quando a UCDB mantinha os pés fincados no solo da MPB e ainda não havia se prostituído com outros gêneros bizarros e nos próprios programas que produzi e apresentei, logo que cheguei a Rondônia. Durante quatro anos, entre às 13:00 e 14:00 horas, meu programa exibiu uma sonoridade ímpar, recheada de canções saudáveis, transitando entre o universo sofisticado da Música Popular Brasileira e o da música instrumental. Agora eu estava ali, preso ao carro e totalmente desarmado. Poderia ter me atracado ao silêncio, seria a melhor companhia, mas resolvi arriscar e vencer o medo. Fechei os olhos e liguei o som, trêmulo, com uma esperança pálida de que algum evento musical milagroso acontecesse, mas sem nenhum êxito. Logo na primeira estação, um míssil sertanejo teleguiado acertou meus ouvidos em cheio. O impulso de sobrevivência fez os dedos mudarem rapidamente para outra frequência, mas em questão de segundos, outro bombardeio, desta vez uma granada sertaneja caiu sobre o banco do passageiro. Ainda zonzo, estiquei o braço e consegui mudar para outra. Imediatamente, antes que fosse novamente atingido, o inimigo avisou pelo megafone, com aquela voz de boi capão: “Agora é o arena rodeio chegando para lhe fazer companhia”. Antes que os disparos acontecessem, fiz a última tentativa, frustrada (é óbvio), mudando para outra que me alvejou sem tréguas, destrinchando balas sertanejas, transformando meu carro numa peneira. Então, em frangalhos e ofegante, desferi um soco no painel, finalmente desligando o aparelho. Por alguns instantes agarrei-me ao silêncio, retomando o fôlego.
     Enquanto rumávamos para casa, lembrei-me de outra peleja que estava por acontecer à noite: a final do programa ídolos. Três candidatos disputariam o prêmio de meio milhão de reais. Uma garota da linha americanizada, o sambista solitário e, pra variar, o capanga da linha inimiga, hasteando a bandeira do sertanejo mobral (esse que alguns iludidos chamam de universitário). Liguei a TV, totalmente desacreditado, já prevendo o fim trágico e inevitável, mas segurei firme nas mãos geladas da esperança e aguardei o momento final. A surpresa foi anunciada. A vitória inesperada surgiu.
     Não sei bem ao certo, se o jovem Everton foi realmente o preferido do povo brasileiro ou se houve a participação do dedo da Record, sei apenas que ganhou quem realmente merecia, pela escolha ousada do repertório, ao longo da competição e pelo talento inquestionável do artista campeão. Prefiro crer que Deus estava comigo naquele carro e Seu dedo Santo encontrou a sintonia certa que tanto procurei, ajudando a aliviar meu sofrimento, mostrando-me a face avermelhada do samba que batia forte no peito e dizia: Ainda estou vivo! 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

CHAMARISCO



     É notório que o Brasil não está economicamente entre as grandes potências mundiais, mas atualmente tem vivido o paradoxo de estar entre os países subdesenvolvidos que mais tem atraído o movimento imigratório e tudo isso demonstra que a crise mundial já escorou seus braços na porta do desenvolvimento e que para outras nações, ainda mais frágeis, esse recanto tupiniquim é um verdadeiro paraíso.
  Além dos irmãos sul-americanos: paraguaios, uruguaios, bolivianos e argentinos, os haitianos também estão se aventurando nesta jornada, em busca de condições melhores para adquirir a sobrevivência, vez que a escassez tem se alastrado em seus territórios. Outro atrativo é a convivência pacífica entre os brasileiros, possuidores de hospitalidade, generosidade e espírito de mansidão, capaz de aceitar as inúmeras afrontas do governo, com suas corrupções desenfreadas e permanecer com o sorriso amarelo estampado no rosto calejado pelo sofrimento e ainda festejar o carnaval até o nascer da quarta-feira de cinzas. Também não há como deixar pelas tabelas, o clima tropical e sua paisagem estonteante, evidenciando que a generosidade do Criador foi ao extremo por essas bandas, despertando os olhos curiosos e cobiçosos de muita gente.
     A diversidade cultural existente no país também é um ímã que continua atraindo, cada vez mais e, de forma acentuada, a atenção de forasteiros para o campo das artes. O samba, a bossa-nova e o chorinho, por exemplo, são provas desse amor bastardo, refletindo no exterior como uma vitrina de talentos inquestionáveis. Essas matizes se estendem por outras ramificações culturais, abrangendo toda a riqueza do regionalismo, de uma ponta à outra do mapa. No campo da literatura não é diferente, esse arco-íris mantém suas cores vibrantes como pano de fundo da pátria brasileira, hasteada juntamente com a bandeira nacional, tão garbosa quanto os versos de Drummond ou a prosa de Guimarães Rosa.
     Os versos do poeta, Vitor Martins, interpretados na canção “Meu país”, de Ivan Lins, evidenciam toda a análise dissertativa e avalizam essa contemplação: “Aqui é o meu país, dos sonhos sem cabimento; Aqui sou um "passarim", que as penas estão por dentro, por isso aprendi a cantar, voar, voar, voar. Me diz como ser feliz em outro lugar?”.
       Os imigrantes sabem muito bem que a resposta está neste chão.