quarta-feira, 27 de novembro de 2013

EMBAGRECIDO

Lá pras bandas do Miranda
Apoitado na toca da onça
Ele passou por mim
Entanguido que só
Lembrei-me.
Desfilou todo entojado
Tocando Miles e Morgan
O resto dos peixes
Embalados pelas ondas do momento
Não davam nem as horas.
- Num canta não, nojento?  - desdenhava a piraputanga
- Larga essa corneta, malassombro! – pilheirava o pacu
Até cascudo tirava uma casquinha do pobre
Assuntei bem a lição.
Eita bicho medonho
O tal do bagre
Pode estar entocado em seu isolamento
Solitário e escarnecido
Mas sobrevive a todo instante
Desacata o tempo
Desmente a lua
E segue seus lamentos
Sem saber que cá do barco
Eu embagrecia, todo vaidoso
Enquanto as águas, como espelhos
Refletiam minha vida
Escorrendo rio abaixo.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

ARTE À LA PARTE

     Enquanto os raios de sol ainda sonolentos entrecortavam a rodoviária de Cacoal, um delicioso cappuccino era saboreado ao som de Guinga e Francis Hime, que apresentavam na TV da lanchonete o novo trabalho autoral dos renomados artistas.
       Era chapiscando açúcar na xícara quente, petiscando o Biscoito Fino e de olho no violão. Estalava os beiços quando o piano emergia. Os demais se atracavam aos pães de queijo e pastéis, nem se davam conta do espetáculo. Vez ou outra, olhares esguios arriscavam encarar a famigerada música que invadia o local. A ojeriza e o desprezo lustravam a cara dos clientes. Por alguns momentos imaginei que o aparelho estivesse com seus dias contados, não passaria ileso nessa fatídica manhã. Os ilustres compositores contavam histórias homéricas sobre grandes parcerias com Vinícius e Paulo César Pinheiro. Baladas e bossas complexas harmonizavam minha audição, mas o repúdio era maior que o prazer. O dono ameaçava mudar o canal, mas o movimento contínuo do caixa não o deixava sair do lugar. Seus olhos eram de pavor e remorso. Estava em frangalhos do outro lado do balcão, com os tímpanos sofridos e as mãos frias, preocupado em não errar no troco.
       Pobre Francis, mísero Guinga, fizeram uma apresentação magistral para apenas uma pessoa da plateia, nem sabem que fartaram minha fome. Os demais saíram ao encontro dos compromissos rotineiros, em jejum, repletos de seus vazios. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

À SOMBRA DO ETERNO

      Enquanto folheava o encarte de “Lachrimae”, disco antológico do pianista André Mehmari, a faixa inicial, “Eternamente”, embalava a divagação que ultrapassou os limites da música, lançando-me num caudaloso remanso de rio. Apoitei o barco com a âncora da saudade e deixei o frescor das memórias invadirem o ambiente.
        Podiam-se vislumbrar claramente os olhos contemplativos de Dona Bela, felizes por estarem cercados de filhos e netos; a revoada de risos pousava no pé de manga e se alvoroçava. A zoada era inevitável, nem dava as horas para o silêncio, espantava a tristeza pra bem longe dali; Bezerra alfinetava Carmela, Carmela cutucava Bezerra, primos se mungangavam, soltavam pilhérias como pipas pomposas, ornamentando o céu da cidade morena. Vez em quando os aromas de feijão, frango e farofa fustigavam a fome. Alguns natais foram vivenciados nesse contexto. Vicente era o Noel. Chegava da feira, com a sacola cheia de presentes e esturrava:
           - Não sai do espinhaço de vocês mesmo!
        Agora as lembranças atracaram-se no Bairro Santo Amaro, lá onde o primeiro instrumento musical deitou-se no meu colo, uma sanfona ganhada com bilhete enganchado na chinela de meu pai. Outros foram entregues a minha mãe, solicitando permissão para anarquizar com o restante da vizinhança. Imagens do primeiro disco comprado na Roberto Som, o clássico “Somewhere in time”, do Iron Maiden, em meados de 1987 (o primogênito em meio a outros inúmeros bolachões de rock e jazz adquiridos posteriormente), também ocupavam parte da imaginação que voava conforme a canção de Mehmari transcorria.
        Esses rumores ainda se inflamam, rugem estrondosamente. Tais imagens continuam com os mesmos matizes, como se tivessem sido pintadas neste exato momento. O frescor da tinta é evidente, vez que sua textura não dá trela ao tempo, engabela o efêmero e traz à tona o momento sempre verdadeiro e único do presente.
        Debrucei-me na janela do carro e vi a eternidade acenando pra mim. Compreendi a canção. 

segunda-feira, 29 de julho de 2013

ACANALHAMENTO ABENÇOADO

       Nos dias 20 e 21 de julho deste ano, os pequis de Goiás fundiram-se ao baião de dois nordestino, ornamentando o palco onde se realizou a 10ª Festa da Família Lacerda. Goiânia, Campo Grande, Cuiabá, Brasília, Campinas, Pedro Gomes, Sonora, Rondônia e até os Estados Unidos despejaram 149 adultos e 10 crianças no evento memorável.
       A festa iniciou-se com a presença de 28 tripulantes da TAM, dentre eles a companhia inesquecível de minha mãe. A parentela se esparramou pelos assentos do avião. As pilhérias não obedeciam ao uso do cinto de segurança e vez ou outra escapavam pelos corredores. Ao desembarcarem no aeroporto Santa Genoveva, o motorista que iria levá-los para a sede do furdunço nem precisou das placas de identificação, pois de longe os cabelos brancos e a zoada já denunciavam os passageiros. A receptividade calorosa dos demais entes queridos já proporcionava uma chegada ao verdadeiro habitat. Foi só abandonar as malas nos dormitórios e cair na folia. Era como se toda essa gente vivesse dentro de um enorme barracão, entrecortado de redes. Daí em diante, a fogueira dos ancestrais se acendeu no coração de cada indivíduo e a flâmula, com seu brasão, permaneceu hasteada até o último instante.
       Os dez barris de chopp aplacavam a sede, bastava abrir as torneiras e o elixir gelado escorria nas canecas, sem contar os inúmeros litros de uísque que também circulavam sem modéstia. No trajeto, quase sempre engarrafado pelos transeuntes, rodas de parentes se revezavam. Os risos frouxos e sotaques eram ensurdecedores, só perderam para a banda de rock que metralhou alguns sucessos na pista de dança, tornando a festa temática ao extremo. Na primeira canção, a vocalização esganada lembrou a primeira aventura hard no pau de arara, liderada pelo heroico João Lacerda Leite, em 1952, trazendo consigo uma leva de cearenses que sonhavam com o desconhecido Mato Grosso do Sul. A banda encerrou com outra viagem ao tempo, destilando a fúria na guitarra que retomava a festa de 15 anos de Tio Cícero. As lavas do vulcão escorreram pelo salão e acima do palco, o pôster do líder da primeira expedição vibrava como uma britadeira, quase despencando da parede. Outro momento inusitado foi a presença do Delegado de Polícia, João Bosco, juntamente com seus comparsas do FBI. A equipe encontrou vestígios de um crime no banheiro e nas mesas de sinuca. Iniciou-se o processo investigatório, evidenciando os dois principais suspeitos: Dalai, que durante a madrugada havia demonstrado suas habilidades no cangapé e Bivis, que passou horas tentando encaçapar a oito. Na manhã de domingo, em menos de três horas de trabalho, o caso já estava resolvido, mas por uma questão de ética profissional não é possível revelar o nome do dito cujo. Vale também ressaltar que o evento foi marcado pela presença de alguns artistas renomados, tais como Joelma (sem o Chimbinha); o compositor de “Mexe as cadeiras”, o talentoso Vinny e Teodoro, sem o parceiro Sampaio, que distribuiu autógrafos para todos os fãs que o cercavam.
       No encerramento, os anfitriões, juntamente com os demais organizadores, anunciaram a próxima festa a ser realizada na cidade morena, em 2014. Neste momento, já em estado de êxtase, pude ouvir duas vozes: o da minha avó Felícia, balançando a cabeça, sussurrando: “Eita povo acanalhado” e a de Deus, gritando dentro do peito: Tenha fé, você vai estar lá!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A VERDADEIRA BELEZA


     O que são os cabelos, senão uma exigência imposta pela sociedade para guarnecer o crânio com suas madeixas? E quando eles cedem às pressões do tempo, devo convencê-los de que não podem mais ser brancos? Será que é proibido ter rugas? Por que viver enfurnado numa academia, apenas para que meu corpo atenda aos padrões estéticos deste século? Se não sou adepto aos modismos estúpidos do momento, estou fora de moda? Devo pagar uma multa, se não obedeço às cores da estação? Quem disse que a beleza dá trela para a vaidade e a ilusão? Tudo isto é enfado e canseira, nada importa, apenas a certeza de que tudo voltará ao pó e que será consumido pelo solo gelado do esquecimento.
     Há beleza nos olhos saudosos de minha mãe, os mesmos que me encararam pela primeira vez quando eu ainda cabia estendido nas palmas de suas mãos; há beleza no primeiro choro tenor do meu filho, dando o ar de sua graça e que ainda posso ouvi-lo mesmo em sua plena adolescência; há beleza na porta que se abre e minha amada me convida para o enlace entre os lençóis; há beleza na voz doce da minha inesquecível avó, quando servia seus beijus e o delicioso café; há beleza nas risadas frouxas dos tios e primos, soltas a esmo nos momentos em que as inventividades e os improvisos apeteciam o senso de humor tão peculiar aos meus entes queridos; há beleza nas pescarias feitas ao entardecer, quando a brisa lambia as margens do rio e me envolvia em seu aroma de peixes nunca fisgados; há beleza na sanfona de Luiz Gonzaga, estremecendo o chão e fervendo o sangue nordestino da minha família; há beleza nos versos do Bandeira e Cabral, degustados no balanço da rede.
     A verdadeira beleza mora no berço das minhas memórias, tão frescas e vivas que nunca as perco de vista. Não preciso boliná-las, elas reverberam aqui dentro, dia e noite, sem dar tréguas, fincadas nas raízes profundas desta árvore encantadora chamada: vida. 

quinta-feira, 7 de março de 2013

DRIBLANDO AS ADVERSIDADES


       A força do nordestino é um dom peculiar ofertado por Deus para que os obstáculos (que não são poucos) sejam ultrapassados. O bom humor, a criatividade e a ousadia são algumas da armas fundamentais para se alcançar a vitória.
     Como explicar essa vitalidade, capaz de suportar os inúmeros flagelos que assolam a região do cangaço? Seca, miséria extrema, educação escassa, falta de oportunidades, preconceitos, empregos mal remunerados, desequilíbrio econômico etc. São apenas alguns exemplos de adversidades que se alastram entre essa gente, no entanto, é dessa região tão precária que surge boa parte da cultura nacional consistente. Luiz Gonzaga, por exemplo, exímio compositor pernambucano, tornou-se um pilar da história da música brasileira, revolucionando o baião, um ritmo nordestino que assumiu proporções jamais imaginadas; Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, poeta e compositor cearense, analfabeto, sem jamais ter aperfeiçoado suas técnicas literárias através de artifícios academicistas, saiu do anonimato para se tornar um exemplo de personalidade importante para a memória da cultura brasileira; autores da rica literatura brasileira, como é o caso do alagoano Graciliano Ramos, através da obra “Vidas Secas”, da cearense Rachel de Queiroz, com “O quinze”, do paraibano José Américo de Almeida, no clássico “A bagaceira” e Euclides da Cunha, que mesmo sendo carioca fez questão de descrever a força do sertanejo baiano, na obra “Os sertões”, demonstraram a descomunal capacidade desse povo em conseguir ultrapassar seus próprios limites de resistência.
     O humor também é um artifício que o nordestino sabe explorar como ninguém, usado como uma válvula de escape para poder ofuscar os problemas que precisa enfrentar no cotidiano. É o caso dos humoristas Renato Aragão, Chico Anysio, Tom Cavalcante, Tiririca, Falcão, além de vários repentistas e outros que fazem do riso uma forma de disfarçar a dura realidade.
     O sofrimento impulsiona as pessoas a saírem do estágio de letargia para alçar voos outrora inatingíveis, provando que a capacidade humana vai muito além daquilo que se imagina. Segundo menciona o nordestino Djavan, em uma de suas composições: “Do nada também se nasce uma flor, com todo o seu poder de coloração e magia”.

quarta-feira, 6 de março de 2013

14611 PRESENTES


     Ao telefone, minha mãe desculpava-se pelo fato de não ter me enviado nenhum presente, o que não concordo e passo a explicar: Segundo ela, às 16:30 horas, em março de 1973, em plena segunda-feira, enquanto os trabalhadores quase encerravam sua primeira jornada exaustiva da semana, meus olhos sonolentos abriram-se pela primeira vez, já chorando grave e sorrindo para o mundo. Isso explica o motivo que sempre me levou a não gostar de acordar cedo e, por isso, repudiar o ridículo ditado popular: “Deus ajuda, quem cedo madruga”. Nasci bem depois da hora do almoço, no entanto tenho inúmeras bênçãos para contar.
   Uma delas é o fato de ser um apreciador do mundo das artes, ter a sensibilidade de contemplar uma boa leitura, ser levado pelas ondas dissonantes do jazz, sentir o prazer de se debruçar sobre os bandolins chorões que reverberam no meu coração tão sedento de brasilidade e ainda sentir o frescor da bossa, refinando minhas audições. E o que dizer do fascínio pelas belas películas do cinema? Num dia, um encontro casual com os “Rosa” (o Guimarães e o Noel, é claro); num outro, um bom vinho na companhia do velho Chico; numa tarde qualquer, um afago do Coltrane e nas madrugadas, um Fellini na tela enorme do meu quarto. Rumores de um roteiro rotinal robusto.
     Outro fator importante é a questão do bom humor, tempero este que não se encontra em qualquer indivíduo, mas que no meu caso é o que mais ressalta o paladar. Trago de sobra essa herança provinda do sangue nordestino, algo tão natural entre os membros de nossa árvore genealógica. Por isso, por onde quer que passo, sempre deixo saudades, provocando nas pessoas a vontade de continuar petiscando este sabor que encanta a vida, tornando os dias mais agradáveis.     E o ofício de ensinar, um talento nato que carrego desde a mais tenra idade. As inúmeras oportunidades lançadas no solo fértil da minha existência: lecionando pela primeira vez aos 19 anos de idade (e nas melhores instituições de ensino da capital morena), despontando meu nome entre os melhores professores de literatura da região; o primeiro programa de MPB e Jazz, com a qualidade impecável que expus durante os quatro anos de permanência em um das rádios de Rondônia. Tudo isto recebi de quem? Obviamente, de um Criador generoso que resolveu despejar toda sorte de bênçãos a alguém que sempre contrariou o tal ditado.
     Depois de ouvir os lamentos infundados, fiz alguns cálculos e cheguei a seguinte conclusão: se o ano possui 365 dias, basta multiplicá-los pelas 40 velinhas e ainda acrescentar 11 dias pelos meses bissextos, o que totaliza 14611 dias de vida. Um homem que consegue chegar aos 40 com todas essas experiências, gozando de plena saúde, na companhia de uma abençoada esposa, de uma família maravilhosa, enlaçado de amigos e de uma mãe que lhe diz carícias ao telefone, já foi muito presenteado e só reforça ainda mais que a teoria popular é fajuta. Deus também ajuda quem acorda tarde.       

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

QUEIXUME



Não sei pra que toda pluma
Tanta banca, tanta pompa
se escanchada na garupa
rindo da mea culpa
é a palavra tosca quem se inflama.

Se quero que lodo vire rosa
Pavão seja peba
E carvão, pérola
Quem se importa?
Se as pedras que trago no embornal
É o que mais me encanta.

A rima que se lasque
O Aurélio que se dane
Há muito já rebolei na ribanceira o Bilac
O Dias, o Casimiro, o Alencar
Eu quero é um Ménage à trois
Com o torto e o traste.

Prefiro a companhia das palavras tronchas
Das que saem sem black tie
E fazem do chão sua cama
Se lambuzam de poeira e lama
E não sabem se noite é dia
Ou se afago é açoite
Sei apenas que poste e tolete são poesia.

Não dou trela se ela tem diploma
Até torço a cara quando me acena
E diz estar no altar feito dama
Mas se cambaleando de tão bêbada
Cai num pé de guanxuma e diz que é puta
Apenas ergo sua saia e ela já está pronta.