quinta-feira, 7 de março de 2013

DRIBLANDO AS ADVERSIDADES


       A força do nordestino é um dom peculiar ofertado por Deus para que os obstáculos (que não são poucos) sejam ultrapassados. O bom humor, a criatividade e a ousadia são algumas da armas fundamentais para se alcançar a vitória.
     Como explicar essa vitalidade, capaz de suportar os inúmeros flagelos que assolam a região do cangaço? Seca, miséria extrema, educação escassa, falta de oportunidades, preconceitos, empregos mal remunerados, desequilíbrio econômico etc. São apenas alguns exemplos de adversidades que se alastram entre essa gente, no entanto, é dessa região tão precária que surge boa parte da cultura nacional consistente. Luiz Gonzaga, por exemplo, exímio compositor pernambucano, tornou-se um pilar da história da música brasileira, revolucionando o baião, um ritmo nordestino que assumiu proporções jamais imaginadas; Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, poeta e compositor cearense, analfabeto, sem jamais ter aperfeiçoado suas técnicas literárias através de artifícios academicistas, saiu do anonimato para se tornar um exemplo de personalidade importante para a memória da cultura brasileira; autores da rica literatura brasileira, como é o caso do alagoano Graciliano Ramos, através da obra “Vidas Secas”, da cearense Rachel de Queiroz, com “O quinze”, do paraibano José Américo de Almeida, no clássico “A bagaceira” e Euclides da Cunha, que mesmo sendo carioca fez questão de descrever a força do sertanejo baiano, na obra “Os sertões”, demonstraram a descomunal capacidade desse povo em conseguir ultrapassar seus próprios limites de resistência.
     O humor também é um artifício que o nordestino sabe explorar como ninguém, usado como uma válvula de escape para poder ofuscar os problemas que precisa enfrentar no cotidiano. É o caso dos humoristas Renato Aragão, Chico Anysio, Tom Cavalcante, Tiririca, Falcão, além de vários repentistas e outros que fazem do riso uma forma de disfarçar a dura realidade.
     O sofrimento impulsiona as pessoas a saírem do estágio de letargia para alçar voos outrora inatingíveis, provando que a capacidade humana vai muito além daquilo que se imagina. Segundo menciona o nordestino Djavan, em uma de suas composições: “Do nada também se nasce uma flor, com todo o seu poder de coloração e magia”.

quarta-feira, 6 de março de 2013

14611 PRESENTES


     Ao telefone, minha mãe desculpava-se pelo fato de não ter me enviado nenhum presente, o que não concordo e passo a explicar: Segundo ela, às 16:30 horas, em março de 1973, em plena segunda-feira, enquanto os trabalhadores quase encerravam sua primeira jornada exaustiva da semana, meus olhos sonolentos abriram-se pela primeira vez, já chorando grave e sorrindo para o mundo. Isso explica o motivo que sempre me levou a não gostar de acordar cedo e, por isso, repudiar o ridículo ditado popular: “Deus ajuda, quem cedo madruga”. Nasci bem depois da hora do almoço, no entanto tenho inúmeras bênçãos para contar.
   Uma delas é o fato de ser um apreciador do mundo das artes, ter a sensibilidade de contemplar uma boa leitura, ser levado pelas ondas dissonantes do jazz, sentir o prazer de se debruçar sobre os bandolins chorões que reverberam no meu coração tão sedento de brasilidade e ainda sentir o frescor da bossa, refinando minhas audições. E o que dizer do fascínio pelas belas películas do cinema? Num dia, um encontro casual com os “Rosa” (o Guimarães e o Noel, é claro); num outro, um bom vinho na companhia do velho Chico; numa tarde qualquer, um afago do Coltrane e nas madrugadas, um Fellini na tela enorme do meu quarto. Rumores de um roteiro rotinal robusto.
     Outro fator importante é a questão do bom humor, tempero este que não se encontra em qualquer indivíduo, mas que no meu caso é o que mais ressalta o paladar. Trago de sobra essa herança provinda do sangue nordestino, algo tão natural entre os membros de nossa árvore genealógica. Por isso, por onde quer que passo, sempre deixo saudades, provocando nas pessoas a vontade de continuar petiscando este sabor que encanta a vida, tornando os dias mais agradáveis.     E o ofício de ensinar, um talento nato que carrego desde a mais tenra idade. As inúmeras oportunidades lançadas no solo fértil da minha existência: lecionando pela primeira vez aos 19 anos de idade (e nas melhores instituições de ensino da capital morena), despontando meu nome entre os melhores professores de literatura da região; o primeiro programa de MPB e Jazz, com a qualidade impecável que expus durante os quatro anos de permanência em um das rádios de Rondônia. Tudo isto recebi de quem? Obviamente, de um Criador generoso que resolveu despejar toda sorte de bênçãos a alguém que sempre contrariou o tal ditado.
     Depois de ouvir os lamentos infundados, fiz alguns cálculos e cheguei a seguinte conclusão: se o ano possui 365 dias, basta multiplicá-los pelas 40 velinhas e ainda acrescentar 11 dias pelos meses bissextos, o que totaliza 14611 dias de vida. Um homem que consegue chegar aos 40 com todas essas experiências, gozando de plena saúde, na companhia de uma abençoada esposa, de uma família maravilhosa, enlaçado de amigos e de uma mãe que lhe diz carícias ao telefone, já foi muito presenteado e só reforça ainda mais que a teoria popular é fajuta. Deus também ajuda quem acorda tarde.