sexta-feira, 17 de maio de 2013

A VERDADEIRA BELEZA


     O que são os cabelos, senão uma exigência imposta pela sociedade para guarnecer o crânio com suas madeixas? E quando eles cedem às pressões do tempo, devo convencê-los de que não podem mais ser brancos? Será que é proibido ter rugas? Por que viver enfurnado numa academia, apenas para que meu corpo atenda aos padrões estéticos deste século? Se não sou adepto aos modismos estúpidos do momento, estou fora de moda? Devo pagar uma multa, se não obedeço às cores da estação? Quem disse que a beleza dá trela para a vaidade e a ilusão? Tudo isto é enfado e canseira, nada importa, apenas a certeza de que tudo voltará ao pó e que será consumido pelo solo gelado do esquecimento.
     Há beleza nos olhos saudosos de minha mãe, os mesmos que me encararam pela primeira vez quando eu ainda cabia estendido nas palmas de suas mãos; há beleza no primeiro choro tenor do meu filho, dando o ar de sua graça e que ainda posso ouvi-lo mesmo em sua plena adolescência; há beleza na porta que se abre e minha amada me convida para o enlace entre os lençóis; há beleza na voz doce da minha inesquecível avó, quando servia seus beijus e o delicioso café; há beleza nas risadas frouxas dos tios e primos, soltas a esmo nos momentos em que as inventividades e os improvisos apeteciam o senso de humor tão peculiar aos meus entes queridos; há beleza nas pescarias feitas ao entardecer, quando a brisa lambia as margens do rio e me envolvia em seu aroma de peixes nunca fisgados; há beleza na sanfona de Luiz Gonzaga, estremecendo o chão e fervendo o sangue nordestino da minha família; há beleza nos versos do Bandeira e Cabral, degustados no balanço da rede.
     A verdadeira beleza mora no berço das minhas memórias, tão frescas e vivas que nunca as perco de vista. Não preciso boliná-las, elas reverberam aqui dentro, dia e noite, sem dar tréguas, fincadas nas raízes profundas desta árvore encantadora chamada: vida.