segunda-feira, 29 de julho de 2013

ACANALHAMENTO ABENÇOADO

       Nos dias 20 e 21 de julho deste ano, os pequis de Goiás fundiram-se ao baião de dois nordestino, ornamentando o palco onde se realizou a 10ª Festa da Família Lacerda. Goiânia, Campo Grande, Cuiabá, Brasília, Campinas, Pedro Gomes, Sonora, Rondônia e até os Estados Unidos despejaram 149 adultos e 10 crianças no evento memorável.
       A festa iniciou-se com a presença de 28 tripulantes da TAM, dentre eles a companhia inesquecível de minha mãe. A parentela se esparramou pelos assentos do avião. As pilhérias não obedeciam ao uso do cinto de segurança e vez ou outra escapavam pelos corredores. Ao desembarcarem no aeroporto Santa Genoveva, o motorista que iria levá-los para a sede do furdunço nem precisou das placas de identificação, pois de longe os cabelos brancos e a zoada já denunciavam os passageiros. A receptividade calorosa dos demais entes queridos já proporcionava uma chegada ao verdadeiro habitat. Foi só abandonar as malas nos dormitórios e cair na folia. Era como se toda essa gente vivesse dentro de um enorme barracão, entrecortado de redes. Daí em diante, a fogueira dos ancestrais se acendeu no coração de cada indivíduo e a flâmula, com seu brasão, permaneceu hasteada até o último instante.
       Os dez barris de chopp aplacavam a sede, bastava abrir as torneiras e o elixir gelado escorria nas canecas, sem contar os inúmeros litros de uísque que também circulavam sem modéstia. No trajeto, quase sempre engarrafado pelos transeuntes, rodas de parentes se revezavam. Os risos frouxos e sotaques eram ensurdecedores, só perderam para a banda de rock que metralhou alguns sucessos na pista de dança, tornando a festa temática ao extremo. Na primeira canção, a vocalização esganada lembrou a primeira aventura hard no pau de arara, liderada pelo heroico João Lacerda Leite, em 1952, trazendo consigo uma leva de cearenses que sonhavam com o desconhecido Mato Grosso do Sul. A banda encerrou com outra viagem ao tempo, destilando a fúria na guitarra que retomava a festa de 15 anos de Tio Cícero. As lavas do vulcão escorreram pelo salão e acima do palco, o pôster do líder da primeira expedição vibrava como uma britadeira, quase despencando da parede. Outro momento inusitado foi a presença do Delegado de Polícia, João Bosco, juntamente com seus comparsas do FBI. A equipe encontrou vestígios de um crime no banheiro e nas mesas de sinuca. Iniciou-se o processo investigatório, evidenciando os dois principais suspeitos: Dalai, que durante a madrugada havia demonstrado suas habilidades no cangapé e Bivis, que passou horas tentando encaçapar a oito. Na manhã de domingo, em menos de três horas de trabalho, o caso já estava resolvido, mas por uma questão de ética profissional não é possível revelar o nome do dito cujo. Vale também ressaltar que o evento foi marcado pela presença de alguns artistas renomados, tais como Joelma (sem o Chimbinha); o compositor de “Mexe as cadeiras”, o talentoso Vinny e Teodoro, sem o parceiro Sampaio, que distribuiu autógrafos para todos os fãs que o cercavam.
       No encerramento, os anfitriões, juntamente com os demais organizadores, anunciaram a próxima festa a ser realizada na cidade morena, em 2014. Neste momento, já em estado de êxtase, pude ouvir duas vozes: o da minha avó Felícia, balançando a cabeça, sussurrando: “Eita povo acanalhado” e a de Deus, gritando dentro do peito: Tenha fé, você vai estar lá!