quinta-feira, 22 de agosto de 2013

ARTE À LA PARTE

     Enquanto os raios de sol ainda sonolentos entrecortavam a rodoviária de Cacoal, um delicioso cappuccino era saboreado ao som de Guinga e Francis Hime, que apresentavam na TV da lanchonete o novo trabalho autoral dos renomados artistas.
       Era chapiscando açúcar na xícara quente, petiscando o Biscoito Fino e de olho no violão. Estalava os beiços quando o piano emergia. Os demais se atracavam aos pães de queijo e pastéis, nem se davam conta do espetáculo. Vez ou outra, olhares esguios arriscavam encarar a famigerada música que invadia o local. A ojeriza e o desprezo lustravam a cara dos clientes. Por alguns momentos imaginei que o aparelho estivesse com seus dias contados, não passaria ileso nessa fatídica manhã. Os ilustres compositores contavam histórias homéricas sobre grandes parcerias com Vinícius e Paulo César Pinheiro. Baladas e bossas complexas harmonizavam minha audição, mas o repúdio era maior que o prazer. O dono ameaçava mudar o canal, mas o movimento contínuo do caixa não o deixava sair do lugar. Seus olhos eram de pavor e remorso. Estava em frangalhos do outro lado do balcão, com os tímpanos sofridos e as mãos frias, preocupado em não errar no troco.
       Pobre Francis, mísero Guinga, fizeram uma apresentação magistral para apenas uma pessoa da plateia, nem sabem que fartaram minha fome. Os demais saíram ao encontro dos compromissos rotineiros, em jejum, repletos de seus vazios. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

À SOMBRA DO ETERNO

      Enquanto folheava o encarte de “Lachrimae”, disco antológico do pianista André Mehmari, a faixa inicial, “Eternamente”, embalava a divagação que ultrapassou os limites da música, lançando-me num caudaloso remanso de rio. Apoitei o barco com a âncora da saudade e deixei o frescor das memórias invadirem o ambiente.
        Podiam-se vislumbrar claramente os olhos contemplativos de Dona Bela, felizes por estarem cercados de filhos e netos; a revoada de risos pousava no pé de manga e se alvoroçava. A zoada era inevitável, nem dava as horas para o silêncio, espantava a tristeza pra bem longe dali; Bezerra alfinetava Carmela, Carmela cutucava Bezerra, primos se mungangavam, soltavam pilhérias como pipas pomposas, ornamentando o céu da cidade morena. Vez em quando os aromas de feijão, frango e farofa fustigavam a fome. Alguns natais foram vivenciados nesse contexto. Vicente era o Noel. Chegava da feira, com a sacola cheia de presentes e esturrava:
           - Não sai do espinhaço de vocês mesmo!
        Agora as lembranças atracaram-se no Bairro Santo Amaro, lá onde o primeiro instrumento musical deitou-se no meu colo, uma sanfona ganhada com bilhete enganchado na chinela de meu pai. Outros foram entregues a minha mãe, solicitando permissão para anarquizar com o restante da vizinhança. Imagens do primeiro disco comprado na Roberto Som, o clássico “Somewhere in time”, do Iron Maiden, em meados de 1987 (o primogênito em meio a outros inúmeros bolachões de rock e jazz adquiridos posteriormente), também ocupavam parte da imaginação que voava conforme a canção de Mehmari transcorria.
        Esses rumores ainda se inflamam, rugem estrondosamente. Tais imagens continuam com os mesmos matizes, como se tivessem sido pintadas neste exato momento. O frescor da tinta é evidente, vez que sua textura não dá trela ao tempo, engabela o efêmero e traz à tona o momento sempre verdadeiro e único do presente.
        Debrucei-me na janela do carro e vi a eternidade acenando pra mim. Compreendi a canção.