quarta-feira, 17 de setembro de 2014

SÓ O DONO GAVA O TOCO

Andava como quem vende ouro
Sapato lustrado, camisa engomada
Desembestava explicar pra que serve
O que só reluz pro olho meu, a arte.
Demorei desaprender
Pelo que a salvação veio dia desses
Disse um menino sabido:
“Só o dono gava o toco”
Embrenhei macega adentro
Todo desarranjado
Não topo com gente mais
No muito é queixada e calango
Do resto só eu, a catinga por trás da moita
E bugio no oco dum pau podre
Arremedando o fazimento
De repente um arrepio fino no pé da nuca
Era o poema se espremendo pra nascer
Agarrei a liberdade pelo rabo
E saí assobiando, todo entanguido
Admirado com a obra pronta.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

COLORINDO O CORAÇÃO

       Dizem os desinformados que no calendário há “o mês do cachorro louco”, mas tal ditado popular foi desmistificado nessa temporada de 2014, criando outra afirmativa comprovadamente real: agosto é o “mês da amizade louca” e foi justamente nesse período que mais cores vibrantes agregadas na memória pintaram meu coração. Desta feita, a escaldante fornalha Cuiabana ventriculou sua tinta escarlata na trilha dos aventureiros.
      Enquanto Lacerda e o cronista ainda sobrevoavam o céu de Rondônia, o anfitrião Manoel já os aguardava em solo mato-grossense para estreitarem ainda mais os laços parentais e desfrutarem dos momentos de intimidade com a natureza, mantinha-se com um olho whatsappeando e outro preso ao pouso dos primos na pista. Na chácara onde desembarcaram, próxima à Chapada dos Guimarães, as preocupações e demais mazelas rotineiras foram escanchadas na porteira, juntamente com os ardis de uma anta faceira que nos dava as boas vindas. Naquele ambiente paradisíaco, vez ou outra o silêncio cedia seu trono apenas para o canto dos pássaros, o marulho das águas, os acordes das guarânias e wapangos que saiam de um violão vadio e o reinado das frouxas risadas que soltavam a esmo. O frescor das memórias renovavam o compasso da sístole e diástole, enquanto o tempo, com seu pincel mais que preciso, continuava renovando minha memória multicolor.
       Outro inestimável amigo já estava por essas bandas. Mirão encarou mil quilômetros de estrada, sacolejando o esqueleto num busão, só para demonstrar sua parceira e desfrutar de nossa companhia junto a uma inesquecível pescaria, às margens do rio Cuiabá, mais precisamente na Comunidade São José, contando ainda com a ilustre presença de outros parceiros: Sérgio e Fernando.
       - Se quiserem dormir, cada quarto custa 60 conto e mais 70 pra usarem o tablado. Aqui temos de tudo, arroz, peixe, farofa, refrigerante, basta ter dinheiro. Mato tem à vontade para as necessidades fisiológicas e o fósforo é por conta da casa - disse Germano, um velho de nariz avantajado, pitando um restolho de fuminho fedorento, num tom cantado, bem pitoresco ao estilo cuiabano.
       - Sem contar que aqui só não dá peixe, mas é um lugar muito bom pra pescar! – disse um dos aventureiros.
       Depois de se entreolharem e desamarrarem o sorriso que insistia em explodir no canto da boca, em unânime concordância, largaram os pertences por ali mesmo e rumaram rio adentro. Mirão era mais elétrico que os poraquês da Amazônia. Banhava-se, lavava roupas, remava, continuava a cantiga que os ribeirinhos entoavam na outra margem, vistoriava cada um dos seis tablados, cevava, trocava de iscas e linhas, enroscava, fazia de tudo, menos capturar um exemplar, enquanto os demais tostavam ao sol, sonhando com algum dourado desafortunado que resolvesse se entreverar entre os anzóis. Até na hora de dormir Mirão manteve-se aceso, acompanhando os rastros dos cupins que enfestavam o local e trocando de dormitórios, na tentativa frustrante de fuga aos roncos descomunais que mais pareciam motosserras destrambelhadas.
       O retorno para casa aconteceu em grande estilo, numa camionete zero quilômetros, mesclando o cheiro do novo aos cardumes nunca fisgados, enquanto meu coração reluzia feliz, estampando os novos matizes que trazia nas lembranças. Tive a plena certeza de ter restaurado o agosto agourado, que de desvairado não tem nada, a não ser a loucura da verdadeira e perfeita amizade, aquela que não visa nenhum interesse, a não ser o prazer de estar ao lado de quem tanto amamos. 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

ABOIO

    Há alguns meses, os pecuaristas rondonienses participaram ativamente da campanha de vacinação do rebanho bovino, tendo um papel fundamental na prevenção e erradicação da febre aftosa, além de extirpar também outros flagelos, tais como o carbúnculo, a brucelose e a famigerada mosca-dos-chifres. Desta feita, lá estava eu acompanhando todo o processo que acontece duas vezes por ano.
     Os mugidos misturavam-se aos sons uníssonos e indefiníveis dos aboios que ecoavam pelo curral:
       - Ouou!, hea hea!, hen hen!...
      O bodejo não possuía nenhum código linguístico que o definisse, mas o gado entendia muito bem a mensagem e obedecia às ordens, seguindo rumo ao brete, só aguardando a agulhada que viria furar seu couro grosso. De sobra, ainda restava receber o ferrete fumegante, alaranjado de tão quente, para evidenciar a marca de seu dono. Escorei os cotovelos num cavalete e fiquei admirando a cena. Como essas vacas entendem esses rumores atípicos? Como saem satisfeitas, contentadas apenas com o pasto que as espera do outo lado da cerca, se o cheiro de couro queimado ainda acompanham suas narinas? As indagações mal foram formuladas e a resposta já batia no quengo suado. Lembrei-me da cidade. Lá também há muitos que ruminam coisas ininteligíveis, no entanto seguem felizes, orientados pelo aboio que os conduz ao piquete:
       - Tchu tcha tcha, hãm, tche tche rere tche tche, bará bará, berê berê, tchubirabiron, Lepo Lepo, rebolation...
       O gado contenta-se com o capim, seja ele mombaça, massai ou jaraguá, mas pelo menos possuem nutrientes que fortalecem o animal e o bolso do produtor que aguarda as tão almejadas arrobas, sem contar meus sonhos com aquela saborosa picanha, mas o que dizer do pasto cheio de pragas que o povo tem ingerido? Compreendi a canção de Zé Ramalho: “Povo marcado, povo feliz”. Seguem mansos como a boiada que vi passar naquele dia, olhando firme para o chão, sem saber que os dias estão contados, tangidos pelo caos, bem próximos do abate.  

quarta-feira, 12 de março de 2014

DEZ, NOTA DEZ!

       Nos dias 02, 03, 04 e 05 de março de 2014, o bloco carnavalesco, Unidos do Miralobra, com o enredo “Reencontro”, deixou na poeira todas as escolas de samba da cidade maravilhosa, os cilibrins ofuscaram os holofotes e o glamour da Sapucaí, voltando-se para as águas do Miranda, proporcionando mais um evento antológico.
       Gazal, o ilustre Mestre-sala e Nilva, a performática Porta-bandeira desfilaram de forma magistral ao som da marcha turca que era conduzida pelo violonista, Vitinho do Prata; no quesito “alegorias e adereços”, a nota dez já era mais que prevista. Burcas, varas, molinetes, morangas, lambaris, minhocas, tuviras, carretilhas, sapicuás, sete léguas, repelentes de toda espécie e chapéus ornamentavam o ambiente; um dos grandes destaques foi a passista Dona Lourdes e sua deslumbrante fantasia “Noites do Oriente”, esvoaçando seu turbante como um pavão eufórico; Já a Comissão de frente foi muito bem conduzida pelos foliões, Ludião e Chena. O nível de encegueramento deles era tanto que passaram a noite inteira enfeitando o carro alegórico denominado “Rancho”, com suas lonas cortinadas, num tom pastel alaranjado, meio allegro ma non troppo, a fim de não perderem nenhum minuto sequer da aventura. E o que dizer da harmonia? Esta foi o cerne do evento. Não houve uma rusga sequer que atrapalhasse o espetáculo deslumbrante. O entrosamento e a alegria da equipe já vinham de longa data, eram parceiros de muitos outros carnavais. O riso frouxo era contagiante, às vezes mesclado por lágrimas que já corriam antes mesmo da saudade fincar suas estacas. A bateria merece um destaque especial. Era intrépida, todos participaram de forma efetiva, executando golpes certeiros e rasantes no tema “Nuvem pernilonguesca”, uma cadência rítmica desenfreada, sem pausas, com fusas e semifusas mais ligeiras que a carreira de um teiú.
       Depois do evento, agora tendo como trilha sonora a balada jazzística “momentos”, tema instrumental do argentino, Luis Salinas, com o letrista já em águas rondonienses, a nostalgia me fez refletir na importância dos fragmentos de vida, vestígios do eterno. A folia cessou, agora é tudo calmaria e, à sombra de Deus, apoito o meu barco e lanço os anzóis. É nesse fundo de rio que ele se ancora e descansa, só aguardando o cardume de sonhos passar outra vez.