quinta-feira, 15 de maio de 2014

ABOIO

    Há alguns meses, os pecuaristas rondonienses participaram ativamente da campanha de vacinação do rebanho bovino, tendo um papel fundamental na prevenção e erradicação da febre aftosa, além de extirpar também outros flagelos, tais como o carbúnculo, a brucelose e a famigerada mosca-dos-chifres. Desta feita, lá estava eu acompanhando todo o processo que acontece duas vezes por ano.
     Os mugidos misturavam-se aos sons uníssonos e indefiníveis dos aboios que ecoavam pelo curral:
       - Ouou!, hea hea!, hen hen!...
      O bodejo não possuía nenhum código linguístico que o definisse, mas o gado entendia muito bem a mensagem e obedecia às ordens, seguindo rumo ao brete, só aguardando a agulhada que viria furar seu couro grosso. De sobra, ainda restava receber o ferrete fumegante, alaranjado de tão quente, para evidenciar a marca de seu dono. Escorei os cotovelos num cavalete e fiquei admirando a cena. Como essas vacas entendem esses rumores atípicos? Como saem satisfeitas, contentadas apenas com o pasto que as espera do outo lado da cerca, se o cheiro de couro queimado ainda acompanham suas narinas? As indagações mal foram formuladas e a resposta já batia no quengo suado. Lembrei-me da cidade. Lá também há muitos que ruminam coisas ininteligíveis, no entanto seguem felizes, orientados pelo aboio que os conduz ao piquete:
       - Tchu tcha tcha, hãm, tche tche rere tche tche, bará bará, berê berê, tchubirabiron, Lepo Lepo, rebolation...
       O gado contenta-se com o capim, seja ele mombaça, massai ou jaraguá, mas pelo menos possuem nutrientes que fortalecem o animal e o bolso do produtor que aguarda as tão almejadas arrobas, sem contar meus sonhos com aquela saborosa picanha, mas o que dizer do pasto cheio de pragas que o povo tem ingerido? Compreendi a canção de Zé Ramalho: “Povo marcado, povo feliz”. Seguem mansos como a boiada que vi passar naquele dia, olhando firme para o chão, sem saber que os dias estão contados, tangidos pelo caos, bem próximos do abate.