sexta-feira, 26 de junho de 2015

TRAQUINAGEM

        Em 1952, o Senhor disse a João Lacerda: “Sai-te do sertão nordestino, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção." Assim o Padre Solimário marcou a abertura da 11ª festa da Família Lacerda, realizada em Campo Grande, entre os dias 19 e 21 de junho de 2015, parafraseando o fato histórico acontecido na vida de Abraão, o pai da fé cristã.
      Assim aconteceu. Com mais de vinte dias na estrada, num pau de arara fretado, uma leva de parentes desembarcaram na cidade de Pedro Gomes. Dois anos depois, todos os demais chegaram e ali permaneceram firmes na promessa. A bênção se expandiu e novos horizontes foram surgindo: Sonora, Coxim, Campo Grande, Cuiabá, Goiânia, São Paulo, até o exterior recebeu as estacas, evidenciando que as tendas realmente estenderam-se.
    Cinco gerações marcaram presença no evento. Alguns ainda guardavam fresco na memória a textura da poeira que traziam consigo naquelas viagens: o choro dos filhos soando como cantigas de lavadeiras que coaravam roupas no lajedo, além dos cheiros de charque e farinha que faziam olhares saudosos entrecortarem-se no salão. Risos frouxos se alvoroçavam e por vezes bailavam entre as águas do enorme lago que ornamentavam o Eco Hotel. Os mais jovens, sem entender o início de toda a aventura, ficavam pasmos com a alegria esfuziante, algo tão ausente entre suas gerações modernas. A festa também celebrou os 96 anos de Canã, bem como os 90 de Naninha e ainda evidenciou a presença de Luis, com seus quase 80. Estes ilustres convidados faziam as lágrimas caírem sem preguiça, representando todos os demais ancestrais que já tinham partido. Na porta de entrada do salão, uma foto gigante expunha apenas alguns troncos da árvore genealógica da família, não se podiam ver as raízes, vez que estas estavam fincadas profundamente no coração de cada Lacerda.
      No palco, antes de iniciar a viagem ao universo dos xotes e baiões, com a The Lacerd’s Band, desfalcada pela ausência de Bareta, vislumbrei minha esposa e as gerações benditas (mãe, pai e filho) que trouxeram a lembrança do Gênesis. Deus cumpriu seus desígnios e fez o festeiro, Manoel Cunha Lacerda e também homenageado por seus 70 anos de vida, arrebatado pela força da emoção, brindar a vitória de todo esse povo com o lançamento da obra “Traquino”, livro que desnuda toda a essência de uma família guerreira, íntegra e bem humorada.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

NOS TRILHOS DA GRATIDÃO

        Durante os dias que estive no Hospital do Câncer, como acompanhante da paciente Maria de Lourdes Matos Lacerda, minha mãezinha querida, durante o mês de maio de 2015, na inesquecível cidade morena, vivenciei algumas lições que levarei como eterno aprendizado: em primeiro, a consciência plena da estrutura humana, sua condição frágil de pó, o quão necessitado somos uns dos outros, por compartilharmos os mesmos sentimentos de dor, medo e angústia.
       É exatamente nessas horas que o ego despenca de seu pedestal e, capenga, vislumbra que tudo nesta vida não passa de vaidade e ilusão.
    Em segundo, a admiração por essa nobre e idônea profissão, em que médicos e enfermeiros se desdobram para proporcionar o melhor atendimento aos pacientes. Nessa tarefa árdua de lidar com vidas, percebi que o dom divino aflora nos gestos e atitudes de bondade que exalam generosamente de seus ofícios de exercer o bem.
       Diante de tal realidade, seria uma extrema ingratidão se não deixasse de registrar meus agradecimentos a todos que participaram efetivamente desta equipe: os diplomados (médicos, fonoaudiólogos, enfermeiros, nutricionistas) e demais funcionários, (limpeza, alimentação e outros) os quais merecem as mesmas lisonjas.
       Mais injusto ainda, seria não agradecer a quem proporcionou todas as despesas: meu pai. Foi ele o responsável por minha estadia em Campo Grande, a fim de que essa experiência de vida me fosse concedida.
    No mesmo norte, vale salientar a importância da participação de pessoas que, espontaneamente, demonstraram gestos nobres de humanidade: Ivanilde e Sinésio, que mesmo sem ter nenhum vínculo sanguíneo com o cronista, desempenharam-se como se o fossem, cumprindo o papel de anjos.
       Os aplausos mais extremosos e confetes, lanço-os a Deus, o distribuidor desses dons e talentos, o qual me concedeu a sensibilidade e percepção necessárias para registrar esse fato memorável.