sexta-feira, 27 de novembro de 2015

VITALIDADE DA ALMA NORDESTINA

“...mas quando é dia de festa todo povo do sertão dança para aparar as arestas do coração”, assim menciona Djavan, nos versos de “Vida nordestina”, uma das faixas do seu novo disco autoral: Vidas pra contar. O alagoano tem razão, pude flagrantear o acontecido em Campo Grande, durante esses quase trinta dias que estive por lá.
Aos 73 anos de idade, após ter enfrentado duas cirurgias contra uma terrível neoplasia e passar por um tratamento severo, com mais de 30 sessões de quimioterapia e 39 radioterapias, já repousando em sua casa, na peleja com um aparelho desses mais modernos, minha mãe desabafou:
- Meu filho, pelo amor de Deus, liga esse bicho, não sei viver sem música!
Compreendi-me. Descobri de onde vem minha paixão pela música e literatura (embora já o soubesse). O gene arretado desta cearense me arrebatou ainda em seu ventre. Mal começaram a rugir os primeiros acordes do violão de Yamandu Costa, mesclados à delicadeza sonora que saía do acordeon de Dominguinhos, que, de sobressalto, já rodopiando pela sala, ela bailava em plena liberdade, agarrando a mão do vento e me convidando para afugentar o silencio que até então imperava. Outras canções foram salpicando brasas em nossos pés e por alguns instantes não havia dor, lamento ou qualquer vestígio de enfermidade, pelo contrário, o espírito do Senhor pairava sobre aquele lugar, a força divina se entrelaçava aos sons que ecoavam pela casa.  
Já ofegante no sofá, enquanto seu corpo ainda frágil dava os últimos passos, vislumbrei a debilidade da matéria contrastando-se com o vigor do espírito; testemunhei a vitalidade da alma nordestina, a qual não se entrega nem desiste de lutar, capaz de suportar as agruras do tempo com o escudo da fé e do bom humor e não esmorecer jamais.
            Toda esta experiência só confirmou aquilo que eu já sabia: música é remédio; o amor realmente existe e Deus está em todo lugar.