domingo, 29 de maio de 2016

SOBREVIVENTES

    Naquela tarde fatídica, esgueirando-me da impassividade do Direito e do campo minado que ameaça explodir meus tímpanos já em frangalhos, por uma questão de sobrevivência e necessidade fisiológico-musical, entrincheirei-me na casa do Thael.
    Cheguei ofegante, disritmado, buscando oxigênio nos acordes dissonantes de seu violão. Ainda poderia aventurar-me lá pelas bandas do Luciano ou até mesmo uma pausa para ver esmerar as baquetas nervosas do Robismar, os únicos da cidade capazes de devolver-me o ar. Sensível e compatriado, sapecou logo à queima roupa três canções da lavra Bosquiana: “Corsário”, “Jade” e  “Quando o amor acontece”. O anfitrião soltou um sorriso ladino e, percebendo que ainda respirava com dificuldade, destilou doses cavalares de Djavan, Chico, Tom, Ivan e Edu. Aos poucos, mergulhamos no mar infinito da Música Popular Brasileira e mais pérolas foram surgindo como antibióticos potentes que expulsavam qualquer vestígio infeccioso.
    Papos culturais foram estreitando os laços de uma amizade necessária, a qual preservo com muita estima e admiração, vez que também é um dos sobreviventes em meio ao caos, atuando como músico refugiado em alguns lugares remotos de Rondônia, sempre mantendo o nível artístico, sem nunca se aderir à promiscuidade sonora que prepondera hoje em dia. Segue sua árdua luta contínua como filho bastardo de uma terra que não é capaz de reconhecer seu talento. Meu corpo já podia sentir a seiva da vida correndo nas veias. Aquele momento sublime transportava-me para bem longe desses modismos febris de pura desilusão. O saudosismo tomava conta e remetia aos discos que guarnecem minha casa, um convite para ligar o som do carro e voltar ao casulo.
   Num ato solitário, já totalmente recomposto, antes mesmo que chegasse próximo ao veículo, rajadas de uma metralhadora destrambelhada rasgaram a esmo o céu: “...as que comandam vão no tra, tra, tra, tra, tra...”. Senti o baque da moléstia tentando minar minhas forças reestabelecidas. Imediatamente, antes de ser alvejado, fechei os vidros, disparei o dedo certeiro no play e o pen drive recheado de jazz, bossas, choros e afins isolou-me no mundo dos tarjas pretas que preciso ingerir perpetuamente, os quais não possuem contra indicações e fortalecem minha existência.